Boas práticas de manejo no
Curral
As rotinas de manejo nas fazendas de bovinos de corte envolvem a realização de várias atividades, sendo que muitas delas precisam ser realizadas nos currais de manejo, onde, apesar de ser possível controlar de forma mais efetiva os animais, há maior risco de estresse e de acidentes, tanto para os vaqueiros quanto para os bovinos que estão sendo manejados. As boas práticas de manejo no curral, também chamadas de manejo de baixo estresse, têm como objetivo reduzir o estresse e como fundamento o conhecimento do comportamento dos bovinos. Tal manejo envolve estratégias que facilitam a realização do trabalho, reduzindo ao máximo as ações que amedrontam ou causam dor aos animais como, por exemplo, a eliminação de gritos e de atos agressivos (Paranhos da Costa e colaboradores, 2019).Um passo inicial nesse sentido envolve uma mudança de atitude, que implica no respeito para com os bovinos, reconhecendo-os como seres sencientes (que têm capacidade de sentir dor, medo e também contentamento) para, em seguida, adotar estratégias de manejo que levem em conta o bem-estar dos animais. O único custo associado ao manejo do gado com baixo estresse é o tempo necessário para aprender suas técnicas. Na verdade, é muito provável que muitos pecuaristas e vaqueiros utilizem essas técnicas sem perceber, uma vez que já possuem conhecimento prático sobre o comportamento dos bovinos.
Atualmente, termos como ponto de equilíbrio, zona cega e distância de fuga são frequentemente usados quando se fala do manejo de bovinos no curral (Grandin, 1999). Isto, graças aos trabalhos desenvolvidos por Temple Grandin e Bud Williams, que desde meados dos anos 80, estruturaram e deram divulgação aos métodos para o manejo de bovinos com baixo estresse. Em ambos os casos, os métodos se fundamentam no entendimento da linguagem corporal e da capacidade sensorial e perceptiva dos bovinos, conhecimentos estes que devem ser aplicados durante a realização do manejo com o gado.
Embora existam algumas diferenças na forma como Temple Grandin e Bud Williams desenvolvem o manejo com os bovino – dentre elas, o manejo com uso de bandeiras e o manejo “sem nada nas mãos” (nome dado, no Brasil, ao método de Bud Williams Stockmanship) – vale lembrar que as técnicas divulgadas por eles não são excludentes, mas sim complementares. Afinal, os dois desenvolveram estratégias de manejo que têm como objetivo a redução do estresse para os animais e os humanos responsáveis por realizar o trabalho e, a depender da situação, uma dessas estratégias pode ser mais adequada que a outra e vice-versa. Mas, lembre-se que para ter sucesso na aplicação prática dessas estratégias de manejo, é necessário seguir seus princípios e conduzir o manejo dos bovinos no curral com calma e atenção.
Uma primeira iniciativa para a adoção de técnicas de manejo de baixo estresse no Brasil foi desenvolvida com foco no manejo pré-abate, em função de danos à carcaça e prejuízos na qualidade da carne, sendo patrocinada pelo Fundepec-SP (Fundo para o Desenvolvimento da Pecuária no Estado de São Paulo). Com base no levantamento realizado (Paranhos da Costa e colaboradores, 1998), foram identificados os seguintes problemas que resultaram no aumento da ocorrência de hematomas nas carcaças: (1) agressões diretas, (2) currais superlotados, (3) manejo inadequado, (4) instalações inadequadas e (5) gado muito reativo. Com base nesses resultados, foram implementados programas de treinamento de forma a orientar as pessoas responsáveis pelo manejo com o gado sobre como adotar as técnicas de manejo de baixo estresse. Ao longo do tempo, houve vários avanços que contribuíram ainda mais para minimizar o estresse dos bovinos durante as práticas de manejo no curral, dentre eles as recomendações de conduzir um animal de cada vez tronco coletivo, também conhecido como brete coletivo, com o propósito de reduzir o risco de acidentes e da entrada de dois (ou mais) animais no equipamento de contenção individual, também conhecido como tronco de contenção ou brete, ao mesmo tempo, e de dispor de piquetes no entorno do curral para acomodar os animais que não estão sendo manejados, que devem ser utilizados antes de iniciar os procedimentos de manejo e logo após finalizá-los, como descrito com mais detalhes no item Recomendações Práticas.
Vale destacar que tudo começa com o nascimento do bezerro. Assim, é fundamental minimizar o estresse durante a realização dos primeiros manejos com os bezerros e, sempre que possível, tornar as primeiras experiências positivas. Isto porque os bovinos têm boa memória e irão reagir ao manejo com base nas situações que experimentaram no passado.
É evidente que houve um grande avanço na adoção das boas práticas de manejo no curral nos últimos 25 anos, com a adesão de um expressivo número de fazendas. A seguir, são apresentadas algumas recomendações práticas sobre como implementar as boas práticas de bem-estar animal durante o manejo dos bovinos no curral, que têm potencial para reduzir o estresse e o risco de acidentes e tornar o trabalho mais eficiente, como já comprovado em muitas fazendas de bovinos de corte no Brasil.
1. Planeje todos os procedimentos de manejo a serem realizados no curral, definindo o número de animais que será trabalhado e a equipe de vaqueiros responsável por realizar o trabalho.
2. Cheque se as instalações, equipamentos e materiais necessários para realizar o trabalho estão disponíveis, limpos e em boas condições de uso.
3. Defina as responsabilidades de cada um dos vaqueiros, que devem ser informados sobre o trabalho que será realizado e estar bem-preparados para realizar os procedimentos de manejo no curral.
4. Conduza os animais para o curral ao passo e com cuidado, sem correr nem gritar.
5. A condução deve ser feita com um dos vaqueiros posicionado à frente do lote, servindo de guia (o “ponteiro”), enquanto os demais devem seguir atrás, para impedir que os animais voltem, mas sem fazer pressão sobre eles.
6. Quando o pasto for muito distante, conduza os animais na véspera, deixando-os passar a noite em um pasto ou piquete próximo ao curral e certifique-se de que há boa disponibilidade de forragem e livre acesso à água.
7. Nunca pressione os animais, principalmente nas transições entre as instalações, como, por exemplo, na entrada de corredores ou nas passagens de porteiras.
8. É recomendável acomodar os lotes de bovinos em piquetes próximos ao curral, levando grupos menores para dentro do curral. Quando isto não for possível, acomode os animais nas remangas.
9. Conduza para o curral apenas o número de animais que será manejado em um período do dia de trabalho. Não encha as remangas e mangas do curral; deixe, pelo menos, metade do espaço livre para que os animais possam se movimentar e o manejo possa ser feito com facilidade.
10. Após os bovinos estarem acomodados no curral, dê atenção para a tropa de lida. Afrouxe as barrigueiras, tire a cabeçada e dê acesso à sombra e água.
11. Não grite, não faça movimentos bruscos e não agrida os animais. Trabalhe com calma, muita atenção e não coloque pressão excessiva sobre os bovinos.
12. Utilize a bandeira de manejo corretamente. Ela funciona com uma extensão de seu braço e serve para auxiliar na condução dos animais, além de reduzir o risco de acidentes. Não use a bandeira para assustar nem para agredir os animais.
13. A condução dos bovinos também pode ser realizada sem nada nas mãos, usando elementos de postura corporal para movimentar o gado.
14. Em ambos os casos, com a bandeira ou sem nada nas mãos, é necessário aplicar os conceitos de distância e zona de fuga, ponto de equilíbrio e zona cega dos bovinos.
15. Use o bastão elétrico portátil somente em animais que não reagiram às outras ferramentas de manejo, como a bandeira e a voz. O choque elétrico portátil deve ser aplicado por 1 segundo na região do polpão dos animais, desde que o animal tenha condições e espaço para se locomover. Nunca dê choque em bezerros!
16. Animais de diferentes categorias (por exemplo, vacas e bezerros ou machos e fêmeas) devem ser separados antes de serem conduzidos para as áreas de manejo mais intensivo. Nesses casos, faça as apartações logo na entrada dos animais no curral, usando as porteiras de transição entre remangas e mangas ou apartadores de canto.
17. Quando os animais apresentarem alguma resistência para passar pela seringa, tronco coletivo, e equipamento de contenção individual, abra todas as porteiras e deixe-os passar livremente, retomando o trabalho em seguida.
18. É recomendável conduzir um animal de cada vez para o tronco coletivo; com isto, se reduz o risco de acidentes e de que entrem dois ou mais animais no equipamento de contenção individual ao mesmo tempo.
19. Realize a contenção com muito cuidado e atenção. Abra a porteira traseira para o animal entrar, fechando-a em seguida à sua entrada. Nesse momento, a porteira de saída deve ficar fechada, abrindo-a apenas quando for necessário estimular o animal a entrar.
20. As estruturas de contenção (pescoceira e parede móvel ou vazieira) só devem ser acionadas depois de fechar as duas porteiras do equipamento de contenção individual. Contenha o animal, primeiramente, com a pescoceira, para, em seguida, quando necessário, fazer uso da coiceira e da parede móvel ou vazieira.
21. Ao finalizar o manejo, libere o animal, abrindo primeiro a parede móvel ou a vazieira e em seguida, a pescoceira. Só abra a porteira de saída quando o animal estiver livre dentro do equipamento de contenção individual.
22. O ideal é que, ao sair do equipamento de contenção individual ou do apartador, o animal tenha acesso a um piquete ou remanga, onde deve receber um reforço positivo, como a oferta de um suplemento alimentar palatável.
23. Os bezerros tendem a se virar dentro do tronco coletivo. Para solucionar esse problema, pode-se construir paredes móveis no tronco coletivo ou instalar painéis para reduzir sua largura. Outra possibilidade é usar uma tábua de manejo, que serve para realizar a condução dos bezerros dentro do tronco coletivo sem o risco de levar um coice; nesse caso, trabalhe com, no máximo, três bezerros por vez, que não devem pesar mais de 150 kg.
Conceitos importantes
Distância e zona de fuga: a distância de fuga é a distância que os animais mantêm entre eles mesmos e alguém ou algo que possa oferecer ameaça. Portanto, é uma distância de segurança, que varia em função do grau de reatividade dos animais e com as circunstâncias, podendo, no caso dos bovinos, ser muito curta ou, até mesmo, igual a zero, quando o bovino se deixa tocar; ou muito longa, podendo passar de 50 ou até de 100 metros. Com base na distância de fuga é definida a zona de fuga de cada bovino, caracterizada pela área em torno de seu corpo, onde ele se sente seguro.
Ponto do equilíbrio: é uma característica diretamente relacionada com o ângulo de visão e com a distância de fuga dos bovinos. Se refere a uma linha imaginária que tem como referência a paleta do bovino, e exerce um papel importante na condução dos bovinos, fazendo com que ele se desloque para frente quando o vaqueiro entra na sua zona de fuga atrás de seu ponto de equilíbrio, ou para atrás, quando o vaqueiro se posiciona à frente desse ponto e dentro da zona de fuga.
Zona cega: os bovinos têm uma zona cega, onde eles não conseguem enxergar. Essa zona se projeta de uma pequena área na frente dos bovinos, passando pelos seus lados e se prolonga para trás, como ilustrado (área amarela) nas figuras abaixo. Assim, quando um vaqueiro se posiciona na zona cega na tentativa de fazer com que o bovino ande para a frente, pode ocorrer exatamente o contrário, pois o animal tende a parar e virar a cabeça; ou, alternativamente, ele faz um movimento semicircular para um dos lados; em ambos os casos, o faz na tentativa de manter o vaqueiro dentro de seu campo visual.
Conheça todas as Boas Práticas de Manejo
Ao assinar o newsletter, declaro que conheço a Política de Privacidade e autorizo a utilização das minhas informações para este objetivo.