Boas práticas de manejo na
Aplicação de Vacinas e Medicamentos
A vacinação e a aplicação de medicamentos são práticas de manejo importantes e necessárias na produção de bovinos, podendo ser obrigatórias em alguns casos. Essas ações têm como objetivo prevenir ou erradicar doenças e, consequentemente, reduzir perdas econômicas decorrentes de problemas de saúde. Entretanto, esses procedimentos nem sempre são realizados de forma eficiente, resultando em alto risco de acidentes de trabalho e de intoxicação para os animais e para as pessoas responsáveis por realizar o trabalho.
Para reduzir esses impactos negativos, a vacinação e a aplicação de medicamentos devem ser feitas com cuidado, seguindo as recomendações de armazenamento do fabricante, evitando manejos que resultem em estresse ou que coloquem as pessoas e os animais em situação de risco, devendo-se estimular a boa interação entre humanos e animais durante a realização dos manejos.
Assim, para melhorar a eficiência da vacinação sem prejudicar o bem-estar dos animais, é importante desenvolver e aplicar as boas práticas de manejo, bem como treinar as pessoas para a correta aplicação de vacinas e medicamentos.
As aplicações de vacinas e medicamentos ainda são realizadas com pouco cuidado nas fazendas de bovinos de corte do Brasil, sem levar em conta os riscos decorrentes de falhas nesses manejos, que podem resultar na redução da eficiência das vacinas e medicamentos, intoxicação dos trabalhadores e animais, ocorrência de acidentes com trabalhadores e animais, transmissão de doenças ou contaminação dos alimentos. Por exemplo, “…Umbigo mal curado é uma das causas de mortalidade de neonato, pois não sendo feita uma boa assepsia […] do cordão umbilical, permite a entrada de micro-organismos […], possibilitando que um agente infeccioso alcance a corrente circulatória e provoque sepse e morte do animal…” (Okuda, 2017).
Os bovinos geralmente reagem à aplicação de vacinas e medicamentos apresentando comportamentos de fuga; eles tentam escapar saltando ou correndo e podem dar coices e cabeçadas, que resultam em maior risco de se machucarem ou às pessoas que estão realizando o trabalho. Essas reações podem resultar em fraturas, cortes ou hematomas nos trabalhadores e nos animais. Além disso, o estresse resultante do manejo tem efeito negativo na resposta imune dos animais (mecanismos de defesa contra a ação de microrganismos e vírus) e isto pode reduzir a eficiência da vacinação. Sem adequada imunidade, há maior risco de os bovinos ficarem doentes e sofrerem os sintomas de infecção (dor, febre, apatia e falta de apetite), prejudicando seu bem-estar e produtividade. Há também o risco de reações e lesões no local de aplicação injetável de vacinas e medicamentos que, devido a contaminação, pode levar a formação de abscessos.
A partir dos anos 2000, pesquisadores do Grupo ETCO iniciaram uma série de estudos em busca de estratégias para melhorar o bem-estar de bovinos durante o manejo. Em um deles, realizado nas Fazendas São Marcelo em Tangará da Serra, no estado de Mato Grosso (MT), foi realizado o estudo que resultou na recomendação de novas estratégias para realizar o manejo de vacinação dos bovinos de corte.
Os resultados desse estudo mostraram que o manejo racional na vacinação, com a aplicação da vacina sendo realizada com cada um dos animais contido no equipamento de contenção individual (também conhecido como tronco de contenção ou brete), não aumenta o tempo para a realização do trabalho e reduz a frequência de acidentes durante a realização do trabalho com redução, por exemplo, do número de animais que se deitam ou caem. Foi observada também uma redução na proporção de animais que apresentaram sangramento nos locais de aplicação das vacinas de aftosa e de carbúnculo, bem como nas ocorrências de introdução à mais (definida pela necessidade de inserir a agulha mais de uma vez no corpo do animal para aplicar a vacina), doses perdidas e equipamentos danificados (agulhas tortas e seringas quebrada). Essas boas práticas de manejo durante a vacinação, que se aplicam também na aplicação de medicamentos injetáveis, têm sido amplamente divulgadas e suas adoções são crescentes nas fazendas de bovinos de corte do Brasil.
1. Antes de iniciar a aplicação de vacinas e medicamentos, verifique se está tudo em ordem para realizar o trabalho, checando se as instalações e equipamentos estão em boas condições de uso.
2. Leve as vacinas, medicamentos e equipamentos necessários para o curral.
Mantenha os frascos de vacinas e medicamentos e as seringas protegidos da poeira e radiação solar, de preferência dentro de uma caixa térmica que evite a exposição a temperaturas muito elevadas. Em alguns casos é preciso manter a temperatura dentro da caixa entre 2 e 8ºC, sempre seguindo o recomendado pelo fabricante.
3. Prepare todo o material necessário para a aplicação das vacinas e medicamentos.
4. Registre o tipo de vacina e medicamento a ser aplicado, o número de identificação dos animais que receberam a aplicação e a data da aplicação. Essas informações são importantes para se respeitar os períodos de carência.
5. Assegure ter disponível os equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados para cada tipo de vacina ou medicamento a ser aplicado (p.ex., luvas, óculos, máscara, capa e botas de borracha).
6. Esses medicamentos podem ser aplicados utilizando banhos por imersão (neste caso é necessário dispor de estrutura especialmente construída para este fim) ou por aspersão, neste caso podendo ser utilizados aspersores portáteis (pulverizadores) ou fixos (chuveiros).
7. Não faça a aplicação em dias chuvosos.
8. Utilize todos os equipamentos de proteção individual necessários (luvas, óculos, máscara, capa e botas) sempre que realizar a aplicação do banho utilizando aspersores portáteis ou em qualquer outra situação que haja risco de contato do humano com a solução do medicamento que está sendo aplicada.
9. Nos casos de banho por imersão, certifique-se que a calda tem a concentração correta do medicamento.
10. Antes de colocar o produto na banheira ou pulverizador, faça uma pré-mistura utilizando um balde para que haja melhor diluição. Em seguida, coloque a pré-mistura na banheira ou pulverizador e complete com água suficiente para que o produto esteja na concentração recomendada pelo fabricante ou médico veterinário.
11. Realize o banho com calma, colocando um animal por vez.
12. Controle o pH da calda seguindo a recomendação na bula do medicamento.
13. Ao finalizar, solte os animais em um pasto ou piquete com boa disponibilidade de sombra.
14. Lembre-se: o resíduos dos banhos por imersão e por aspersão são altamente tóxicos, portanto, devem ser coletados (no caso do banho por aspersão) e descartados com cuidado para evitar contaminação do solo e da água.
1. Certifique-se em qual categoria animal o medicamento pode ser aplicado.
2. Não faça a aplicação de medicamentos pour-on quando os animais estiverem com a pele úmida ou molhada e nem em dias chuvosos.
3. Evite realizar a aplicação nas horas mais quentes do dia.
4. Se for realizar outros procedimentos com os animais no curral, deixe para realizar a aplicação do medicamento pour-on no final.
5. Use luvas sempre que aplicar medicamentos pour-on, sendo recomendado também o uso de máscara e óculos.
6. Faça a aplicação com o animal contido, preferencialmente no equipamento de contenção individual ou opcionalmente no tronco coletivo.
7. Aplique no animal apenas a quantidade recomendada pelo fabricante ou médico veterinário.
8. Ao finalizar, solte os animais em um pasto ou piquete com boa disponibilidade de sombra.
1. No caso da aplicação de produtos injetáveis, conduza os animais ao equipamento de contenção individual ao passo, sem gritos e sem choques. Não bata as porteiras nem as estruturas de contenção no corpo do animal.
2. Contenha os animais de forma correta e com muito cuidado. Bezerros jovens devem ser contidos com as mãos.
3. Com o animal contido, use o lado mais conveniente ou confortável para aplicar a vacina ou o medicamento. Nunca passe o braço por entre as barras do equipamento de contenção individual, sempre abra a janela (ou porteira) para ter acesso ao pescoço do animal e injetar a vacina.
4. A aplicação injetável de vacinas e medicamentos deve ser realizada preferencialmente no pescoço dos animais. Use agulhas específicas para cada tipo de vacina e medicamento e para a categoria animal. No caso da aplicação de mais de uma vacina ou medicamento, use os dois lados do pescoço.
5. Para aplicação subcutânea, posicione a seringa na posição paralela ao pescoço do animal, puxe o couro para formar uma prega, introduza a agulha e injete a vacina ou medicamento.
6. Para aplicação intramuscular, mantenha a seringa na posição perpendicular ao pescoço do animal, introduza a agulha e injete a vacina ou medicamento.
7. Para aplicação endovenosa, faça o garrote e puncione a veia jugular.
8. O ideal é usar uma agulha por animal. Troque a agulha a cada aplicação e coloque as agulhas usadas para ferver por, pelo menos, 20 minutos.
9. Nunca insira uma agulha suja no frasco da vacina ou medicamento.
10. Após a aplicação solte o animal que recebeu a vacina ou medicamento, conduza o próximo animal para o equipamento de contenção individual, repetindo os procedimentos.
11. O ideal é que o animal saia direto em uma remanga ou piquete com água e sombra e, se possível, que encontre ali uma recompensa na forma de alimento.
12. Quando o equipamento de contenção individual não estiver disponível, vacine os animais no tronco coletivo, e quando este também não estiver disponível, contenha os animais usando um cabresto (apropriado apenas para animais mansos).
13. Quando a carga da seringa acabar, retire a agulha, coloque-a na vasilha com água. Pegue uma agulha limpa e coloque-a na seringa. Abasteça a seringa e coloque-a na caixa térmica.
14. Preste atenção na água usada para desinfecção das agulhas, caso a água fique suja, realize sua troca por completo.
15. Ao final do trabalho, ponha as agulhas em água fervente por 20 minutos. Retire as agulhas desinfetadas da vasilha com água fervente, colocando-as sobre papel absorvente limpo e seco. Cubra com outra folha de papel.
16. Lave os demais materiais com água e sabão e enxague bem em água corrente.
17. No final do trabalho, limpe as instalações e os equipamentos e guarde as seringas e todas as agulhas em recipiente limpo e fechado.
18. Para descartar agulhas e seringas, embale-as em caixas ou tubos e coloque o material embalado em um local apropriado e seguro. Aproveite para avaliar a condição das agulhas, descartando as tortas e com ponta romba.
Conceitos importantes
Biossegurança: a biossegurança é o conjunto de ações voltadas para a prevenção, minimização ou eliminação de riscos que possam comprometer a saúde dos humanos e dos animais e o meio ambiente, que podem ser classificados em 5 tipos: físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e acidentais. Todos eles presentes no ambiente de trabalho durante a realização do manejo com bovinos.
Equipamentos de Proteção Individual: equipamentos de Proteção Individual ou EPIs são quaisquer meios ou dispositivos destinados a ser utilizados por uma pessoa contra possíveis riscos ameaçadores da sua saúde ou segurança durante o exercício de uma determinada atividade. Um equipamento de proteção individual pode ser constituído por vários meios ou dispositivos associados de forma a proteger o seu utilizador contra um ou vários riscos simultâneos. O uso deste tipo de equipamentos só deverá ser contemplado quando não for possível tomar medidas que permitam eliminar os riscos do ambiente em que se desenvolve a atividade.
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