Boas práticas de manejo com
Bezerros recém-nascidos

Para obter alta eficiência na produção, as vacas de cria devem parir um bezerro todo ano, a fim de que a atividade seja lucrativa. Entretanto, não basta que a vaca faça nascer um bezerro por ano, é necessário que ele sobreviva e seja desmamado com saúde e vigor. Não há estatística oficial que defina, precisamente, a taxa de mortalidade de bezerros do nascimento à desmama no Brasil, mas sabe-se que ela é muito variável, podendo variar de 6% a 18%, dependendo da raça e das condições de criação.

É reconhecido por todos que o estresse pode causar queda de imunidade, com isso os bezerros ficam doentes mais frequentemente e podem até morrer. Nesse cenário, além das perdas econômicas decorrentes da morte do animal, deve-se ter em conta os custos com medicamentos veterinários e aqueles relativos à queda no desempenho desses bezerros, que certamente ocorrerão e, por vezes, durarão por toda a vida do animal.

Assim, o manejo dos bezerros deve ser realizado com o maior cuidado possível, de forma a assegurar boas condições de saúde e, consequentemente, maior probabilidade de sobrevivência e expressão do potencial genético do bezerro. Para tanto, é fundamental que a equipe responsável pelo manejo das vacas e dos bezerros esteja bem treinada, que o trabalho seja realizado em instalações adequadas, usando equipamentos e materiais de boa qualidade, que evitem falhas de manejo e que o trabalho seja realizado com atenção e planejamento prévio.

Um pouco da história e do estado da arte do bem-estar no manejo do bezerro recém-nascido

Os sistemas de produção de bovinos de corte diferem, consideravelmente, ao redor do mundo e, portanto, cada sistema tende a apresentar seus próprios desafios em relação ao bem-estar dos animais. É nítido que a ciência tem estudado os fatores de risco que resultam em altas taxas de morbidade e de mortalidade de bezerros ao redor do mundo, com particular atenção ao uso indiscriminado de antimicrobianos. Ainda nesse cenário, recebe bastante atenção a temática sobre o alívio da dor durante a realização de procedimentos dolorosos como, por exemplo, a castração de bezerros.

Nas condições brasileiras, as principais causas de mortalidade de bezerros foram amplamente estudadas pelo Grupo ETCO desde a década de 90, e os motivos para tais perdas ocorrem, principalmente, quando há dificuldades no parto, baixo vigor dos bezerros, cuidados maternais deficientes e ambiente com alto risco de acidentes. Adicionalmente, as experiências de campo indicam também haver grande influência da ação humana, ainda bastante deficiente nas fazendas brasileiras. Isto em função das recorrentes falhas de monitoramento durante a estação reprodutiva, devendo ser dada especial atenção para os sinais indicativos de: proximidade do parto (vaca amojando), parto distócico, ingestão de colostro pelos bezerros, problemas de saúde de bezerros e de retenção de placenta em vacas, por exemplo; bem como por deficiências ou falhas na realização do primeiro manejo, como por exemplo, na cura do umbigo e na aplicação de manejos agressivos com os bezerros.

Nesse cenário, nos últimos anos têm sido desenvolvidas diversas estratégias práticas para proporcionar que o manejo dos bezerros recém-nascidos seja realizado com segurança e eficiência, assegurando boas condições de bem-estar tanto dos animais quanto das pessoas que realizam o trabalho. Muitas dessas estratégias, já testadas e validadas no campo, têm sido adotadas em diversas fazendas brasileiras. Por exemplo, a manta de contenção foi idealizada, originalmente, em um estudo do Grupo ETCO na Fazendas São Marcelo, em Juruena, MT, onde havia a necessidade de se realizar o primeiro manejo em mais de 60 bezerros por dia, e era necessária uma estrutura que otimizasse o processo e necessitasse de um número menor de vaqueiros. Ao longo dos últimos anos, a manta foi aperfeiçoada e se mostra, cada vez mais, confortável e útil para o manejo dos bezerros que demandam pesagem, pois ela pode ser acoplada a uma balança portátil.
Paralelamente, houve um aumento do interesse dos pecuaristas pelo maior entendimento das relações comportamentais entre a vaca e o seu bezerro, visto que atender a essas necessidades têm efeito direto no desempenho dos animais, facilita o manejo e assegura melhores condições de bem-estar para os animais e as pessoas. Nesse contexto, tem-se reconhecido que as experiências vividas pelo animal têm uma forte influência nesse processo, portanto, tudo o que um bezerro aprende e conhece durante os primeiros dias de vida (caracterizado por ser um período sensível de aprendizado) fica memorizado por muito tempo. Por isso, a aplicação de boas práticas no manejo do bezerro recém-nascido é essencial!

Ainda nesse cenário, o estímulo tátil tem sido tratado na literatura como um dos mais importantes durante o período da infância, com estudos clássicos em roedores e bebês humanos, demonstrando que a estimulação tátil melhora o desenvolvimento do organismo como um todo e os animais se tornam mais ativos, menos medrosos e mais dóceis. Nesse sentido, algumas iniciativas foram feitas com animais de produção, com destaque para os estudos em condições brasileiras do Grupo ETCO realizados com bezerros leiteiros. Mas foi somente nos últimos anos que se observou a aplicação desse conhecimento em fazendas brasileiras de bovinos de corte, como é o caso da Fazenda Orvalho das Flores, em Araguaiana, MT. Os resultados mostram que este procedimento de manejo favorece a formação de memórias positivas, estimulando a formação de um vínculo dos bezerros com os humanos, o que leva à redução da distância de fuga e do estresse dos bovinos de corte durante os manejos subsequentes.

A premissa básica é a de estabelecer interações positivas com os bovinos desde o nascimento, de forma a proporcionar a formação de boas memórias e, com isto, reduzir o medo em relação aos humanos, o que torna o manejo mais fácil e seguro.

Recomendações para a implementação das boas práticas de manejo com bezerros recém-nascidos

1. Faça um bom planejamento do manejo do bezerro recém-nascido, caracterizando todos os procedimentos necessários para a realização dessa etapa, listando os materiais e equipamentos necessários, nomeando as pessoas responsáveis por fazê-lo e descrevendo, detalhadamente, como cada procedimento deve ser feito na sua fazenda (esse documento é conhecido como POP – Procedimento Operacional Padrão).

2. Antes do início da estação de nascimento, vistorie os pastos maternidade e assegure-se que apresentam boas condições para os nascimentos, incluindo ausência de buracos em cercas, porteiras e bebedouros estejam em bom estado de conservação. Também devem ter áreas de sombreamento com dimensões compatíveis com o número de fêmeas que irão parir, a fim de se evitar o acúmulo de fezes e lama.

3. Os materneiros, profissionais responsáveis por realizar o monitoramento dos pastos maternidade, assim como das vacas, antes, durante e após o parto, bem como dos bezerros recém-nascidos, devem ser capacitados em boas práticas de manejo e bem-estar animal.

4. Os materneiros devem ter a seu dispor os equipamentos, materiais e medicamentos necessários para o atendimento das vacas com dificuldades de parto e para os primeiros cuidados e manejo com os bezerros recém-nascidos. Assegure-se também que todos os equipamentos e materiais estão em bom estado de conservação, assim como estão disponíveis em quantidade suficiente.

5. Um mês antes da data prevista para o parto, as vacas devem ser apartadas e conduzidas para os pastos maternidade. Atenção! As novilhas devem ser mantidas em pastos exclusivos para elas, facilitando seu monitoramento pelos materneiros e minimizando o risco de troca ou roubo de bezerro pelas vacas.

6. As visitas ao pasto maternidade devem ser realizadas, pelo menos, duas vezes ao dia, de preferência nos horários mais frescos do dia (por exemplo, no início da manhã e no final da tarde).

7. Durante essas visitas, os materneiros devem monitorar os sinais e a evolução do trabalho de parto das vacas, bem como a condição dos bezerros recém-nascidos, avaliando, principalmente, seu vigor e a ingestão do colostro. Atenção especial deve ser dada às condições do tempo e do ambiente, que podem atrapalhar o trabalho de parto e o vigor do bezerro (ou o tempo que ele leva para se levantar e mamar o colostro) como, por exemplo, a ocorrência de chuvas, entrada de frentes frias ou ondas de calor e ataques de urubus ou carcarás. Ao notar qualquer problema, o materneiro deve intervir para solucioná-lo, e quando não puder resolver, acionar a gerência, que tomará outras providências necessárias.

8. O primeiro manejo do bezerro, que envolve o contato com os humanos, só deve ser realizado após a formação do vínculo materno-filial.

Considere manejar os bezerros nascidos pela manhã, no final da tarde e os que nasceram à tarde, na manhã do dia seguinte. Se for detectado algum problema, como bezerros “enroscados” ou falhas na mamada do colostro, deve-se intervir imediatamente.

9. Para ajudar um bezerro com falhas na mamada do colostro, use as seguintes estratégias (considere que a primeira estratégia é a mais indicada, e esta não sendo eficiente, pode-se tentar as demais):

9.1. Contenha a mãe (de preferência no equipamento de contenção individual, também conhecido como tronco de contenção ou brete) e ajude o bezerro a mamar.

9.2. Ordenhe o colostro da mãe e forneça em uma mamadeira.

9.3. Contenha outra vaca recém-parida e ajude o bezerro a mamar nela.

9.4. Ordenhe o colostro de outra vaca recém-parida e forneça em uma mamadeira.

9.5. Descongele o colostro do banco de colostro e forneça em uma mamadeira.

9.6. Forneça colostro em pó comercial.

10. Quando o manejo do bezerro for realizado em remangas, conduza as vacas com seus bezerros sempre ao passo, com muita calma e sem gritos. Para tornar este manejo mais eficiente, é recomendável que os vaqueiros façam os acasalamentos das vacas com seus bezerros utilizando o colar de identificação.

11. No pasto, contenha cada bezerro com muito cuidado e leve-o para o cercado para a realização do manejo. Se for necessário laçá-lo, apenas segure-o, nunca o arraste. Essa é uma condição que coloca os vaqueiros em situação de risco de acidentes, portanto, deve ser feita sempre com o apoio de um dos vaqueiros montado a cavalo.

12. Na remanga, realize a apartação de vaca e bezerro e, após a apartação, contenha o bezerro com as mãos, segurando-o pela virilha e pescoço para direcioná-lo até o local do manejo ou carregue-o no colo.

13. Em ambos os casos, a contenção pode ser feita colocando o bezerro deitado no chão ou na manta de contenção. No primeiro caso, segure o bezerro pela virilha e pelo pescoço, levante-o um pouco e apoie-o na perna fazendo-o escorregar até o piso, sendo recomendável colocá-lo sobre uma manta ou almofada. Não jogue o bezerro no chão e nem coloque o peso do seu corpo em cima dele! Se for utilizar a manta, posicione o bezerro sobre a manta e levante-o. Atenção: ele deve ficar completamente suspenso, pois o fato dele apoiar uma ou mais patas no piso aumenta muito o risco de acidentes graves, como fraturas, por exemplo.

14. Identifique o bezerro, preferencialmente, combinando o uso de tatuagem com brincos de identificação, que podem ser visuais ou eletrônicos.

15. Pese o bezerro sempre que possível. Neste caso, recomenda-se o uso da manta de contenção pendurada na balança portátil ou o uso da fita de pesagem. Atenção! Jamais amarre as quatro patas do bezerro e pendure-o de ponta cabeça.

16. Realize a cura do umbigo por imersão com o bezerro em pé ou suspenso na manta. O coto umbilical e sua inserção no abdômen devem ser imersos por, no mínimo, 30 segundos, em uma solução de iodo a 10% ou produto comercial indicado para esta finalidade

17. Os bezerros devem receber parasiticidas que previnam a instalação de bicheiras, pois o coto umbilical é extremamente atrativo às moscas varejeiras.

18. Não corte o umbigo do bezerro, a não ser que seja muito grande. Nos casos que o corte for necessário, utilize uma tesoura limpa e desinfetada e mantenha o coto umbilical com, no mínimo 5 dedos ou 10 centímetros de comprimento.

19. Aproveite o momento em que o bezerro está contido e faça a estimulação tátil, ou seja, faça massagem ou carinho nas regiões onde a vaca costuma lambê-lo, no dorso, anca e parte superior das pernas traseiras.

20. Ao liberar o bezerro, conduza-o gentilmente para próximo de sua mãe e tenha certeza de que ambos se encontraram.

21. Para manter os registros de nascimento, bem como dos medicamentos utilizados nos bezerros, os materneiros devem dispor de cadernetas de bolso ou meio similar específico para esse fim. Destaca-se que o protocolo de tratamento veterinário (com sintomas das principais doenças, medicamentos, dosagens e vias de aplicação), bem como a capacitação do materneiro para esse fim, deve ser feito por um médico veterinário responsável pela saúde dos animais da fazenda.

Conceitos importantes

Bezerros Guachos: deve-se, sempre que possível, promover o manejo de adoção dos bezerros guachos pelas vacas que perderam seus bezerros.

Caso essa opção não seja possível, os bezerros guachos devem ser amamentados diariamente, no mínimo, duas vezes por dia, com leite de boa qualidade de outras vacas, em baldes com bico ou mamadeiras. Dependendo das condições da fazenda, os bezerros podem ser amamentados pelas vacas “guacheiras”. Atenção! Lembre-se de que, além do leite, os bezerros guachos também precisam ter acesso a outros recursos importantes, incluindo água, pasto de qualidade, abrigo e local sombreado para descanso, sem se esquecer dos cuidados que devem receber logo após o nascimento, como a ingestão de colostro e cura do umbigo.

Estruturas e equipamentos que podem auxiliar no manejo dos bezerros recém-nascidos

Remangas e curral maternidade: local onde as vacas paridas são levadas para que os bezerros recém-nascidos sejam apartados e manejados de forma segura. Existem diferentes modelos, dos mais simples, formados por pequenos cercados com tábuas, onde são posicionados os bezerros no momento da realização do manejo, até os mais complexos, que possuem até o equipamento de contenção individual para ajudar no parto, por exemplo. Mas, basicamente, é um local onde as vacas paridas são levadas para que os bezerros recém-nascidos sejam apartados e manejados de forma segura.

Manta de contenção: a manta de contenção é um equipamento criado para facilitar a contenção do bezerro, comumente feita de couro e alças reforçadas que são acopladas em um gancho. A manta contém cinco furos, quatro deles usados para colocar as patas dos bezerros e um furo no centro, onde a região do umbigo ficará exposta. Assim, o bezerro fica contido e pendurado de forma segura e confortável, enquanto o materneiro realiza o trabalho em pé, confortavelmente.

Para maior detalhamento, ler o Guia e assistir os Tutoriais de Boas Práticas de Manejo para a Redução da Marca a Fogo, disponíveis aqui.

Copo para cura de umbigo: o copo indicado para realizar a cura do umbigo é o mesmo utilizado para fazer antissepsia dos tetos de vacas de leite (copo para pré-dipping sem retorno).

Conheça todas as Boas Práticas de Manejo

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