Boas práticas de manejo no
Confinamento
O confinamento de bovinos é uma atividade crescente para a terminação dos bovinos no Brasil, isto porque pode ser economicamente vantajosa ao produtor, além de oferecer uma série de vantagens para a cadeia produtiva da pecuária de corte, contribuindo para um maior equilíbrio na oferta de animais terminados ao longo do ano, redução na pressão sobre as pastagens durante o período da seca e diminuição da idade ao abate. Entretanto, é preciso reconhecer que “…o confinamento é um ambiente não natural para os bovinos…” (Ferracini e colaboradores, 2022), podendo ser muito desafiador para os animais, principalmente quando eles são mantidos sob condições de criação e de manejo que não consideram suas necessidades e capacidades individuais de adaptação.
Situações como essas geram estresse intenso e prolongado, o que prejudica o bem-estar e o desempenho dos bovinos no confinamento. O objetivo com a adoção das boas práticas de manejo no confinamento é minimizar o risco de falhas de adaptação dos bovinos, evitar situações que resultem em sofrimento aos animais e tornar o manejo mais eficiente. Com isto, espera-se melhorar o bem-estar e o desempenho dos animais, com consequente aumento do lucro para os produtores.
Grande parte da discussão científica sobre bem-estar de bovinos em confinamento teve origem nos sistemas tipicamente europeus caracterizados pelo alojamento do gado em ambientes fechados (indoors), com cama sobre o piso ou piso de concreto. Como é de se esperar retratam problemas de bem-estar animal por vezes diferentes daqueles enfrentados pelos animais terminados em sistema de confinamento ao ar livre (outdoors), como realizado nas condições brasileiras.
Os bovinos passam a maior parte da sua vida em pastagens, nos ambientes em que foram evolutivamente preparados para viver e são transferidos para os confinamentos para terminação, o que no Brasil dura cerca de 90 a 120 dias. Apesar do curto período em confinamento, há um grande potencial de prejuízo ao bem-estar dos animais e consequentemente no seu desempenho e qualidade das carcaças, com impacto negativo na economia da atividade. Apesar desses problemas, essa é uma questão que precisa receber mais atenção dos produtores.
É notório que grande parte dos confinamentos brasileiros enfrentam os problemas típicos dos confinamentos ao ar livre, também observados na Argentina, Uruguai, Austrália, México, Canadá e EUA. Dentre esses problemas, destacam-se a formação de lama nos currais de confinamento durante o período de chuvas, com consequente aumento da sujidade corporal dos animais; estresse por calor, devido a falta de sombra para os animais nos currais do confinamento; alta concentração de poeira durante o período de seca e alta densidade de animais, que têm estimulado questionamentos e desenvolvimento de pesquisas avaliando o bem-estar e desempenho dos bovinos confinados considerando o espaço disponível por animal, tamanho dos lotes, disponibilidade de sombra e a adaptação prévia ao ambiente do confinamento. Dentre esses estudos destacam-se os realizados pelo Grupo ETCO, todos realizados em confinamentos comerciais para representar verdadeiramente a realidade brasileira.
Os resultados foram animadores, pois em todos os estudos (com foco no aumento do espaço disponível por animal, redução do tamanho do lote, familiarização prévia do animais ao ambiente de confinamento e disponibilidade de sombra aos animais) foi observado uma associação positiva e significativa entre os indicadores de bem-estar e de desempenho dos animais, indicando que ao melhorar o bem-estar dos animais, melhoramos também seu desempenho, com implicações positivas na qualidade das carcaças e na rentabilidade da operação.
Com base nesses resultados foi publicado em 2018 o livro Boas Práticas de Manejo, Confinamento (Macitelli e colaboradores 2018) e elaborado no ano de 2023 o primeiro protocolo brasileiro para certificação de bem-estar de bovinos em confinamento chamado de Confinar BEM.
Lembre-se, bovinos são herbívoros pastadores, adaptados a viver em condições típicas dos ambientes de pastagens e, portanto, podem enfrentar dificuldades quando mantidos em ambiente de confinamento.
Adote práticas de criação e de manejo que facilitem a adaptação dos bovinos ao ambiente de confinamento.
1. Certifique-se que os currais de confinamento apresentam estruturas como cercas, porteiras, cochos e bebedouros em boas condições de uso.
2. Tampe os buracos e recolha pedras e outros materiais que estiverem dentro dos currais de confinamento.
3. Sempre que possível, forme os lotes 15 dias antes de os animais entrarem no confinamento. Se possível mantenha-os em um pasto ou piquete recebendo 1% do peso vivo em matéria seca da dieta que será utilizada na adaptação do confinamento. Esse processo ajuda na formação da hierarquia, reduz significativamente animais refugos e promove maior ganho de peso.
4. Realize o desembarque dos animais logo após a chegada no confinamento. Mantenha a calma, não grite, não agrida e não use choques para desembarcar os animais.
5. Evite fazer o processamento dos bovinos logo após o desembarque! Dê a eles a oportunidade para que se recuperem do transporte, instalando-os provisoriamente em piquete ou curral do confinamento, com alimento volumoso e água de boa qualidade. Considere um período de recuperação entre 12 e 24 horas para animais transportados por até 6 horas. Para viagens mais longas, amplie o período, mantendo-o entre 24 e 48 horas.
6. O processamento dos animais consiste na identificação e na aplicação de medicamentos e vacinas, que devem ser realizadas seguindo as recomendações de boas práticas de manejo no curral e para identificação e aplicação de vacinas e medicamentos.
7. Forme lotes com no máximo 150 animais, preferencialmente até 100 animais.
8. Antes de iniciar a condução dos bovinos para os currais de confinamento, certifique-se de que todos os caminhos estão livres de obstáculos e todos os animais estão em boas condições de saúde.
9. Separe os animais com comprometimento de saúde e conduza-os para o piquete/curral enfermaria, onde devem ser acompanhados sob orientação de um médico veterinário.
10. Conduza os animais para os currais de confinamento ao passo, sem gritar.
11. Procure oferecer pelo menos 24 m2/animal, estudos mostram que esta condição favorece o desempenho dos bovinos e resulta em menor número de animais com problemas de saúde.
12. Após a acomodação dos animais nos currais, inicie a rotina de monitoramento. Realize o monitoramento diariamente e faça-o com muita atenção e cuidado. Faça o monitoramento sempre caminhando (montado a cavalo) dentro do curral de confinamento.
13. Nas duas primeiras semanas de confinamento, realize o monitoramento duas vezes ao dia, reduzindo para uma visita diária a partir da terceira semana.
14. Animais que apresentarem sinais de dificuldades de adaptação por um período superior a três dias devem ser retirados do lote e levados para um piquete ou para o curral enfermaria, onde devem receber atenção especial e tratamento veterinário, quando necessário.
15. Limpe os cochos diariamente e lave os bebedouros pelo menos duas vezes por semana.
16. Certifique-se de que todos os animais têm fácil acesso ao cocho e ao bebedouro a qualquer hora do dia durante todo o período de confinamento.
17. Aplique diariamente o escore de cocho antes de realizar o primeiro trato. Aplique também o escore de fezes dos animais, bem como avalie seus comportamentos para assegurar que a dieta está sendo ofertada em quantidade e qualidade adequada.
18. Evite ao máximo que os animais permaneçam nos currais de confinamento com lama acima da altura dos cascos. Estudos mostram perda de eficiência no ganho de peso dos animais. Retire o excesso de lama, faça reposição de cascalho sempre que necessário e reduza para menos da metade o tamanho dos lotes confinados no período das águas.
19. Certifique-se de que o sistema de drenagem esteja funcionando bem e limpe os currais de confinamento regularmente.
20. Faça a reposição de cascalho nas áreas mais susceptíveis à formação de lama, em especial nas áreas próximas ao cocho e ao bebedouro.
21. Controle a poeira durante o período de seca usando sistemas de aspersão. Acione os aspersores quando houver condições de baixa umidade do ar e no piso, e nos horários em que houver maior atividade dos animais. O sistema de aspersão quando bem dimensionado, em bom estado de manutenção e com gestão do controle da temperatura e umidade do ar auxiliam na promoção do conforto térmico dos animais.
22. Outra maneira de reduzir a poeira é usando caminhões pipa ao longo das vias de acesso onde há constante trânsito de animais e maquinários.
23. Disponibilize área sombreada para todos os bovinos confinados, o suficiente para abrigar todos os animais ao mesmo tempo a qualquer hora do dia.
24. É comum os bovinos apresentarem o comportamento de se coçarem e, geralmente o fazem nos esteios das cercas, aumentando a necessidade de manutenção e o risco de acidentes. Para atender a esta necessidade dos bovinos, sem causar estes problemas, é recomendado instalar coçadores dentro dos currais de confinamento.
25. Disponha de um protocolo definido por um médico veterinário para as principais doenças que acometem os bovinos confinados. Um médico veterinário deve treinar os vaqueiros para avaliação de sintomas e realização de tratamentos.
26. Faça os registros de uso de medicamentos veterinários e controle o período de carência dos medicamentos.
Conceitos importantes
Comportamento social e hierarquia de dominância: os bovinos são animais sociais e, portanto, vivem em grupos, compartilhando as áreas de alimentação e de descanso. Esta condição resulta em competição pelo acesso aos recursos, dentre eles alimento, água, sombra e área seca para se deitar, que é minimizado com a formação da hierarquia de dominância. Os bovinos competem por meio de interações agressivas, que envolvem ameaças, cabeçadas, empurrões, montas, perseguições e brigas. A partir destas interações agressivas, os animais passam a se reconhecer individualmente. É com base nesse reconhecimento individual que ocorre a formação da hierarquia de dominância, definindo quem, dentre os bovinos de um mesmo grupo, terá acesso prioritário aos recursos (conhecidos como dominantes) e quem terá que esperar ou ceder o lugar para eles (os submissos). Lotes com mais de 150 animais dificultam o reconhecimento individual, o que dificulta ou impede a formação da hierarquia de dominância.
Indicadores de falhas ou de dificuldades de adaptação: para identificar os animais que enfrentam dificuldades de adaptação no confinamento é necessário monitorar os animais individualmente! Este monitoramento deve ser diário, dedicando atenção especial para os animais que apresentam vazio fundo, narinas secas e ausência de ruminação e aqueles que pulam as cercas, se mantêm isolados do grupo, permanecem muito tempo parados no fundo dos currais, não procuram o cocho ou vão pouco ao bebedouro. É normal alguns animais apresentarem estes sinais no primeiro e segundo dia de confinamento. Entretanto, se esta condição durar mais de três dias, eles devem ser retirados do curral e levados para um piquete ou para o curral enfermaria, onde devem receber atenção especial e tratamento veterinário quando necessário.
Monitoramento das condições de saúde dos animais no confinamento: é frequente encontrar bovinos com problemas de saúde nos confinamentos. Isto se dá, principalmente, devido a redução na resposta imune, comum em situações estressantes. Portanto, monitore as condições de saúde de todos os animais, inclusive daqueles que estiverem deitados, levantando-os para melhor inspeção.
Há vários sinais que indicam haver comprometimento da saúde dos bovinos, dentre eles destacam-se:
1. Animais isolados do grupo, apáticos e prostrados.
2. Animais que passam muito tempo deitados e são relutantes para se levantar e caminhar.
3. Animais com manqueira ou que apresentam lesões nos cascos.
4. Animais feridos ou com inchaço em alguma parte do corpo.
5. Animais com movimentos descoordenados, cambaleantes.
6. Animais ofegantes ou com dificuldades para respirar.
7. Animais com corrimento nasal purulento e que apresentam espirros e tosses frequentes.
8. Animais com salivação excessiva e a língua caída para fora da boca.
9. Animais com diarreia ou com presença de muito muco ou sangue nas fezes.
10. Animais empanzinados, com aumento de volume no vazio esquerdo (timpanismo).
11. Animais com o vazio esquerdo muito fundo (sinal de ausência ou de pouco alimento no rúmen).
12. Animais muito magros (em comparação aos outros animais do lote).
13. Animais com a cabeça e pescoço esticados para frente.
14. Animais com arqueamento do dorso.
15. Animais que apresentam vocalização excessiva.
16. Animais que batem de patas no chão, balançam a cauda excessivamente ou escoiceiam o ventre.
Conheça todas as Boas Práticas de Manejo
Ao assinar o newsletter, declaro que conheço a Política de Privacidade e autorizo a utilização das minhas informações para este objetivo.