Boas práticas de manejo na
Desmama
O ideal é que a desmama dos bezerros de corte seja realizada a partir de 7 a 8 meses de idade. No Brasil a desmama é geralmente realizada de forma abrupta, separando-se completamente os bezerros de suas mães, o que causa estresse em ambos, decorrente principalmente da quebra do vínculo materno-filial. Essa situação é agravada quando a desmama é seguida do transporte dos bezerros para outras fazendas (Taylor e colaboradores, 2020) Uma forma de minimizar esse estresse é realizar a separação gradual da vaca e de seu bezerro, permitindo que eles tenham contato visual, olfativo e auditivo por um certo período antes da separação total e definitiva, caracterizado assim a desmama lado a lado. Seguindo-se os critérios da desmama lado a lado e com uma preparação prévia bem-feita, é esperado que o estresse da separação seja minimizado, facilitando a retomada das rotinas de atividade de pastejo, ruminação e descanso por ambos, vacas e bezerros. Com a adoção da desmama lado a lado, é esperada a redução da frequência e intensidade de vocalização, redução do tempo em que os bezerros passam caminhando, aumento do tempo ingerindo alimentos e, consequentemente, maior ganho de peso dos bezerros. Adicionalmente, os resultados de estudos comparativos já demonstraram que os bezerros desmamados na desmama lado a lado apresentaram ganho de peso superior nas duas primeiras semanas e permaneceram com ganho superior até trinta dias após a desmama, quando comparados com bezerros desmamados pelo método da separação total e abrupta (Price e colaboradores, 2003).
Vários estudos científicos têm comprovado que a desmama artificial promove alterações comportamentais, fisiológicas e imunológicas indicativas de estresse nos bovinos (Enríquez e colaboradores, 2011; Lynch e colaboradores, 2019). Alguns trabalhos, como o de Stookey e colaboradores (1997), avaliaram o efeito do contato parcial, por meio da cerca, entre vacas e bezerros durante a desmama, podendo ser encontrado na literatura científica internacional como “fenceline weaning” que tem sua tradução livre em português como “desmama lado a lado” e os resultados já se mostravam positivos. Foi por meio do trabalho de Price e colaboradores (2003), realizado na Califórnia, EUA, que pela primeira vez em contraste a esses estudos anteriores, empregou-se um grupo controle que eram bezerros não desmamados com o objetivo de se determinar até que ponto a desmama lado a lado reduziria os efeitos negativos no comportamento e no desempenho dos bezerros.
Aqui no Brasil, o Grupo ETCO (Grupo de Estudo em Ecologia e Etologia Animal, da Unesp de Jaboticabal) realizou diversos estudos e validações no campo que comprovaram os benefícios da adoção da desmama lado a lado em diferentes raças e em diferentes cenários, com contribuições muito significativas ao método e que facilitaram a adoção da desmama lado a lado pelos pecuaristas brasileiros. Com destaque, a Fazenda Mundo Novo, em Uberaba, no estado de Minas Gerais (MG), que realiza a desmama lado a lado há mais de 20 anos. Neste caso, os bezerros desmamados têm a companhia de uma vaca madrinha como relatado por Eduardo Penteado Cardoso, que tomou esta decisão ao observar o comportamento natural de “creche” em lotes de vacas paridas, que consiste na formação de um grupo de bezerros em companhia de algumas vacas, as madrinhas, enquanto suas mães pastam. Com essa observação, nas desmamas da Mundo Novo sempre são mantidas algumas vacas madrinhas para minimizar o estresse dos bezerros (Braga e colaboradores). Essa estratégia foi testada e validada, sendo hoje recomendada (embora não obrigatória) para facilitar o processo de adaptação dos animais, principalmente em lote de animais mais agitados e menos acostumados com o manejo. É importante que a vaca madrinha seja conhecida dos bezerros e seja um animal dócil, acostumado a frequentar o cocho, por exemplo. É recomendado utilizar uma vaca madrinha para cada 25 a 30 bezerros.
Um dos primeiros desafios enfrentados foi a definição no número de fios de arame na cerca que separa o pasto das vacas do pasto dos bezerros. Foram realizados vários testes, considerando a realidade de cada fazenda, com uso de cercas elétricas (com 2 ou 3 fios) e com cercas convencionais (com 5, 6 e 7 fios) com ou sem fios de choque. Em algumas fazendas também havia a possibilidade de ter duas cercas, com um corredor no meio. Nessa condição há a expectativa de que a ausência do contato físico entre vacas e bezerros poderia anular os benefícios do manejo, mas na prática isso não se confirmou, sugerindo que o contato visual e olfativo foram suficientes. Assim, em todas essas situações o resultado da desmama lado a lado foi satisfatório, sendo, hoje, recomendada no Brasil, tanto separada por uma única cerca, quanto por duas cercas com um corredor no meio. Outra adaptação feita pelo Grupo ETCO após avaliação foi a de que nos primeiros dias, os bezerros tendem a permanecer mais próximos à cerca, portanto a presença de bebedouro próximo ou na divisa da cerca facilita a ingestão de água pelos bezerros.
A desmama lado a lado tem sido adotada pelos pecuaristas de cria por ser um manejo simples que não demanda investimentos e tem fácil execução. Estudos em condições brasileiras apresentam ganhos de peso dos bezerros até 40% superiores quando comparados com os bezerros desmamados de forma abrupta, e essa diferença se manteve durante as quatro primeiras semanas após a desmama, o que impacta positivamente na saúde financeira das fazendas de cria, já que aumenta o ganho de peso e, consequentemente, o peso dos bezerros no momento da venda.
Considere fundamental que os bezerros devem ter recebido o protocolo sanitário, prescrito por um médico veterinário e devem apresentar boa saúde para serem desmamados.
1. Para realizar a desmama lado a lado, é necessário planejamento prévio e a preparação de pastos ou piquetes onde ela será realizada, que podem ser separados por uma cerca ou por duas cercas com um corredor no meio.
2. Os pastos/piquetes escolhidos devem ser de fácil acesso, limpos, e de preferência, planos; ter cercas bem estruturadas e em bom estado de manutenção (não há uma regra sobre a quantidade mínima de fios, mas é importante que estejam com fios bem esticados e palanques bem assentados).
3. Os pastos/piquetes devem ter alta disponibilidade de forragem de boa qualidade e fácil acesso a água e sombra para os animais.
4. É importante também que o bebedouro e o cocho para suplementação dos bezerros estejam próximos a cerca que divide os pastos/ piquetes onde ficaram suas mães.
5. As estratégias nutricionais para os bezerros podem variar de acordo com a fazenda, mas sempre que possível é recomendado oferecer um suplemento, iniciando pelo menos uns 15 dias antes da desmama, para que os bezerros se acostumem a ir ao cocho, o que facilita o monitoramento dos animais e a interação humano-animal durante o processo de desmama.
6. As etapas da desmama lado a lado incluem:
6.1 Período de adaptação ao novo pasto: que deve durar, em média, três dias no pasto/piquete onde os bezerros irão permanecer com suas mães até serem apartados. Esta etapa não deve ser realizada quando a desmama for realizada em piquetes ou pequenos pastos, pois a permanência das vacas por três dias nesses locais pode reduzir a quantidade e a qualidade da forragem.
6.2 Apartação das vacas e dos bezerros: após a adaptação, vacas e bezerros devem ser apartados com as vacas sendo conduzidas para um pasto à frente ou ao lado daquele onde estão alojados os bezerros e devem permanecer nesse mesmo pasto por, pelo menos, três dias, podendo-se manter algumas vacas madrinhas junto ao lote de bezerros. Os pastos/piquetes podem estar separados por uma única cerca ou por duas cercas, com um corredor entre elas.
6.3 Condução das vacas para pastos distantes: três ou quatro dias após a apartação, as vacas podem ser conduzidas para outros pastos, mais distantes, onde não terão mais contato com seus bezerros.
6.4 Condução dos bezerros para outros pastos: após três ou quatro dias do deslocamento das mães, os bezerros também podem ser conduzidos para outros pastos.
7. Para se evitar estresse adicional à desmama, é recomendado que outros manejos, como vacinação, vermifugação e identificação, por exemplo, sejam realizados, pelo menos, sete dias antes de se iniciar o processo de desmama.
8. Adicionalmente, a desmama só deve ser realizada com bezerros em boas condições de saúde e com bom escore de condição corporal pois, mesmo nas melhores condições, é esperado algum nível de estresse durante a desmama, o que pode aumentar o risco de ocorrência de doenças oportunistas, como diarreias e síndromes respiratórias nos animais mais susceptíveis.
9. Deve haver monitoramento do desempenho e da saúde dos bezerros durante todo o processo de desmama até cerca de 15 dias após ser finalizada, sempre tendo em mente que bezerros com sinais de problemas de saúde devem receber atenção e cuidados veterinários imediatos.
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