Boas práticas durante o
Manejo Reprodutivo
Sabe-se que o sucesso na reprodução dos bovinos depende de muitos fatores: genéticos, nutricionais, sanitários e ambientais, com destaque para a relação entre o comportamento dos animais e sua respectiva fisiologia. Nesse contexto, é reconhecido na literatura que o estresse impacta negativamente o sucesso reprodutivo dos bovinos. É importante destacar que a crescente intensificação na adoção de tecnologias na reprodução, que abrange a seleção de animais férteis por exames andrológicos e ginecológicos, todo o preparo para a indução do cio, aspiração folicular, inseminação artificial ou transferência de embriões, também intensificou a interação humano-animal. Nesse cenário, as interações entre os humanos e os animais durante o manejo reprodutivo, geralmente, envolvem ações que geram diferentes níveis de desconforto ou dor nos animais e que muitas vezes tendem a ser repetitivos, como no caso da aplicação dos protocolos de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), fazendo com que as vacas fiquem mais reativas ao manejo no curral.
A adoção de boas práticas durante o manejo reprodutivo tem como objetivo reduzir o estresse dos animais, favorecer a construção de memórias positivas ou neutras em animais submetidos a esse procedimento de manejo, tornar mais eficiente a realização do trabalho e melhorar o bem-estar e a segurança das pessoas e dos animais envolvidos no manejo, além de aumentar o sucesso reprodutivo. Nesse cenário, a boa manutenção dos equipamentos e das estruturas onde se realizam os manejos, bem como a presença de animais com bom escore de condição corporal e com protocolo sanitário em dia são fundamentais para se obter os resultados esperados dos protocolos reprodutivos nas fazendas de cria brasileiras.
Segundo Barusselli e colaboradores (2022), entre os anos de 2020 e 2021 houve um crescimento de 25% no mercado de inseminação artificial, indicando que mais de 90% das inseminações realizadas no Brasil foram realizadas utilizando a técnica de IATF. Apesar dos grandes avanços na adoção e na metodologia da técnica nas fazendas de cria brasileiras, observa-se deficiências na adoção das boas práticas de bem-estar animal durante a realização desse manejo. Paralelamente, diversas pesquisas científicas compartilham resultados robustos sobre os efeitos negativos do mau manejo durante a IATF e seu impacto no bem-estar e na segurança dos animais e das pessoas bem como na redução das taxas de concepção, com destaque especial para a qualidade da interação humano animal e a reatividade da vaca. Os resultados dos estudos conduzidos pelo Grupo ETCO mostraram que as vacas submetidas aos manejos sucessivos de um protocolo de IATF se tornaram mais reativas ao longo do período de aplicação do protocolo e há resultados de pesquisas mostrando que quanto mais reativa é a vaca maior é o tempo necessário para realizar a inseminação, há maior frequência de interações agressivas com os vaqueiros e consequentemente piores são as taxas de prenhez na IATF. Adicionalmente as vacas reativas tendem a defecar e urinar mais, sendo então a sujidade perineal um problema com potencial de aumentar o risco de contaminações.
Nesse contexto, na tentativa de reduzir a reatividade e melhorar o temperamento de matrizes, uma estratégia que tem apresentado resultados muito positivo é pela adoção dos manejos que levem em conta o processo de aprendizagem natural dos bovinos, usando assim os processos de habituação e condicionamento operante com reforço positivo, as chamadas “escolinhas”, pois reduzem as reações comportamentais típicas de estresse, incluindo menor frequência cardíaca e agitação durante o manejo reprodutivo. Essa estratégia de manejo tem sido adotada por diversas fazendas brasileiras, tanto no processo reprodutivo quanto em outros processos de manejo com resultados satisfatórios na redução da reatividade dos animais.
1. Faça um bom planejamento do manejo reprodutivo, caracterizando todos os procedimentos necessários para a realização dessa etapa, listando os materiais e equipamentos necessários, nomeando as pessoas responsáveis por fazê-los e descrevendo, detalhadamente, como cada procedimento deve ser feito na sua fazenda (esse documento é conhecido como POP -Procedimento Operacional Padrão).
2. Certifique-se de que todas as estruturas e equipamentos do curral de manejo (em especial o equipamento de contenção individual, também conhecido como tronco de contenção ou brete) estejam em boas condições de uso.
3. Antes de iniciar a estação reprodutiva, certifique-se que as vacas apresentam bom escore de condição corporal (no mínimo entre 2,5 e 3,0, considerando a escala de 5 pontos) e que durante a estação elas serão submetidas a um ambiente capaz de fornecer um balanço nutricional energético positivo.
4. Realize os exames ginecológicos e o protocolo sanitário antes de iniciar a estação de reprodução para certificar-se de que as matrizes estão fisiológica e morfologicamente aptas à gestação. Adicionalmente, verifique sinais de afecções pós-parto e de perdas pré-partos, integridade da glândula mamária e do aparelho reprodutor bem como angulação da pelve.
5. Assegure que as matrizes tenham acesso a sombra para que possam se proteger do estresse por calor, que impacta negativamente sua fertilidade, além de causar aborto, reduzir a qualidade do colostro e favorecer o nascimento de bezerros fracos.
6. Realize os manejos associados à aplicação do protocolo de IATF com muita calma e cuidado, evitando o estresse desnecessário.
7. Avalie a reatividade das vacas, pois vacas muito reativas apresentam menor probabilidade de ficarem prenhas.
8.Para reduzir a reatividade das vacas durante o manejo no curral, coloque em prática o processo comumente chamado de “escolinha”, pois auxilia a reduzir as memórias negativas e o medo do local e das pessoas.
9. Sempre conduza as matrizes ao curral ao passo, sem gritos e agressões, e preferencialmente nos horários mais frescos do dia.
10.Evite que as matrizes percorram grandes distâncias até o curral e sejam submetidas imediatamente ao protocolo de IATF e, reduza ao máximo o tempo que elas ficam dentro do curral.
11. Tenha na fazenda piquetes próximos ao curral para que os animais esperem o início e/ou o fim dos manejos em um ambiente menos estressante, com livre acesso a água, alimento e sombra.
12. A escolha do sêmen ou do touro deve considerar a categoria da matriz, as quais devem ser separadas, no mínimo, em novilhas, primíparas e multíparas.
13. Para a monta natural, realize o exame andrológico dos touros. Lembre-se, o exame andrológico pode ser extremamente estressante, principalmente quando é feito com uso do eletroejaculador. Recomenda-se usar aparelhos com ondas tipo senoidal por gerarem menor sensibilidade no touro. Para reduzir mais ainda o desconforto não utilize protocolos de estimulação fixos, tenha em conta o limiar de resposta de cada touro.
14. Não misture touros jovens com adultos, zebu com europeus e nem misture touros de diferentes tamanhos com e sem chifre.
Conceitos importantes
Habituação: é um processo de aprendizado no qual os bovinos param de responder a estímulos ou situações novas que se repetem a intervalos regulares ou que são apresentadas continuamente, desde que não causem nenhum efeito sobre eles. De maneira mais simples, os animais se acostumam com o estímulo ou a situação. Por exemplo, podemos habituar os bovinos a passarem pelas estruturas do curral, fazendo com que passem por ali repetidas vezes sem que nada de ruim ou bom aconteça durante as passagens. Os bovinos, acostumados com essa situação, se tornam menos reativos, facilitando o manejo.
Condicionamento operante com reforço positivo: é um processo de aprendizado no qual os bovinos associam determinados manejos a estímulos ou situações positivas, aumentando a probabilidade de que apresentem os comportamentos desejados. Por exemplo, quando oferecemos alimento (reforço positivo) para os bovinos após passarem pelas estruturas de manejo no curral, estamos condicionando-os a passarem por essas estruturas com mais facilidade. Esse procedimento pode ser usado para equilibrar ações potencialmente negativas, como por exemplo na aplicação de injeções durante a IATF. Para tanto é recomendado a soltura imediata dos animais em uma remanga ou em um piquete próximo, onde deve ser fornecido um alimento altamente palatável, que atua como reforço positivo, facilitando a realização do mesmo manejo no futuro. Vale destacar que, nesse caso, o alimento oferecido não tem nenhuma função nutricional, é simplesmente algo que os bovinos gostam e, portanto, pode ser oferecido em pequena quantidade, o suficiente para que os bovinos associem o alimento ao procedimento de manejo realizado imediatamente antes de sua ingestão. É importante que a oferta do alimento seja feita em local e condições que permita o acesso de todos os animais ao mesmo tempo, sem competição.
Como realizar a escolinha: opte por realizar o processo usando a habituação ou o condicionamento operante com reforço positivo, sendo o último com a disponibilidade de algo palatável para os animais com maiores chances de aprendizado mais rápido ou a liberação imediata para um pasto com boa disponibilidade de forragem, água e sombra, tende a ter o mesmo efeito. Assim, alguns dias antes de iniciar o protocolo de IATF, conduza as vacas e novilhas com calma e cuidado para o curral e permita que elas passem por todas as estruturas do curral (mangas, corredores, seringa, tronco coletivo e equipamento de contenção individual) sem que nada lhes aconteça. Faça todo o manejo de forma tranquila e silenciosa, dê tempo aos animais. Não realize a contenção e ao saírem do equipamento de contenção individual, ofereça um suplemento palatável. Repita esse procedimento por três dias (podendo ser em dias alternados) e observe o comportamento dos animais. Animais muito reativos, não acostumados com o manejo ou com experiências prévias muito negativas, podem precisar de mais repetições até que reduzam suas reações comportamentais de estresse. Lembre-se que esse manejo precisa ser calmo e tranquilo, do contrário os efeitos obtidos serão o inverso. A escolinha é mais difícil de ser realizada durante dois ou três dias em vacas paridas, mesmo assim, ao trazê-las ao curral para o protocolo, aparte os bezerros e realize pelo menos uma vez a passagem de todas elas com calma pelas estruturas sem realizar nenhuma atividade.
Conheça todas as Boas Práticas de Manejo
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