Boas práticas de manejo no Transporte:
Embarque, Viagem e Desembarque

O transporte de bovinos de corte envolve as etapas de embarque, a viagem propriamente dita e o desembarque, que se caracteriza como uma fonte potencial de estresse para os animais, mesmo quando todos os procedimentos são realizados da maneira correta e em viagens de curta distância. Isto porque durante esses procedimentos os bovinos são submetidos a alterações nas rotinas de manejo e, durante a viagem, são mantidos em ambiente desconhecido caracterizado por espaço restrito que apresenta vibrações, ruídos e um microclima desafiador (que tende a ser quente e úmido, e normalmente com a presença de gases irritantes como a amônia). É necessário, também, um esforço físico considerável para a manutenção do equilíbrio em pé, o que demanda gasto energético, enquanto são privados de água, alimento e descanso. Como é de se esperar, esses desafios são ainda maiores quando a viagem tem longa duração e é realizada em estradas em más condições de manutenção, o que aumenta, consideravelmente, o risco de os animais enfrentarem situações extremas de estresse severo ou prolongado.

Nessas condições, os animais desenvolvem reações fisiológicas que caracterizam o estado de estresse, com aumento na concentração de cortisol no plasma sanguíneo, que causa supressão do sistema de defesa do animal, reduzindo sua imunidade, o que favorece a multiplicação de microrganismos, tornando os animais mais susceptíveis a doenças oportunistas, como a “febre do transporte” (do inglês “fever shipping”) e outras síndromes respiratórias, que têm sido descritas após o transporte de longa duração em bezerros desmamados e em gado magro, que causam redução do seu desempenho e custos extras com tratamento veterinário. Ainda, quando o destino final é o frigorífico, a privação de alimento, água e descanso tem um efeito direto no metabolismo dos bovinos e, consequentemente, na qualidade da carne, em decorrência do estresse físico, que resulta no esgotamento das reservas de glicogênio muscular, importantes para a transformação dos músculos em carne, resultando em carnes mais escuras, duras e secas, conhecida como carne DFD (do inglês “dark, firm and dry”), que gera prejuízos para a indústria, devido à desvalorização dos cortes de carne e também para os consumidores, que irão comprar um produto de qualidade inferior. Nos casos mais graves, este desgaste físico pode resultar em animais caídos e não aptos para desembarcarem do veículo, que demandam a necessidade de realizar abate de emergência ou eutanásia, quando não chegam mortos ao destino final.

Considerações sobre o embarque

O ideal é que o embarque seja realizado após um planejamento prévio, em curral com boas condições de manutenção e por vaqueiros experientes e bem treinados, que tenham muita calma e consideração pelos animais. O embarque nas fazendas de bovinos de corte é considerado um manejo mais complexo se comparado com o desembarque, principalmente devido à interação intensa, em um curto período, entre os animais que serão embarcados, as pessoas (equipe da fazenda, vaqueiros, equipe da transportadora e/ou motorista) e as instalações/equipamentos (estruturas do curral, como passagem pelo tronco e embarcadouro, bem como os compartimentos de carga dos veículos). As boas práticas de manejo durante o embarque dos animais nas fazendas têm como objetivo minimizar o estresse das pessoas e dos animais, reduzir o risco de acidentes e a necessidade de retrabalhos, além de oferecer melhores condições para que os animais enfrentem o estresse da viagem com o mínimo de comprometimento do seu estado de saúde (oferecendo água e descanso até minutos antes do embarque) e da qualidade de suas carcaças (como a redução de ocorrências de lesões devido ao pisoteio, escorregões, quedas ou colisões contra as estruturas).

Apesar de ser um manejo mais simples que o embarque, também necessita de planejamento e de equipe capacitada em boas práticas de manejo e bem-estar animal para que seja realizado corretamente. Deve-se ter em mente que durante o desembarque, os animais estarão, muito provavelmente, cansados e com sede e entrarão em um ambiente totalmente desconhecido. As boas práticas de manejo durante o desembarque e a recepção dos animais nas fazendas têm como objetivo minimizar o estresse da viagem, reduzir o risco de acidentes e oferecer melhores condições para que os animais se recuperem fisicamente, melhorando, assim, suas respostas aos manejos sanitários e nutricionais sequenciais, pois sabemos que o estresse no transporte tem impacto negativo na função imune e no desempenho dos animais. A adoção das boas práticas de manejo facilita a realização do desembarque, reduzindo ao máximo o risco de lesões nos animais advindas de pisoteio, escorregões, quedas ou colisões contra as estruturas, que causam dor, aumentam o risco de acidentes e afetam a qualidade da carcaça (devido à ocorrência de lesões e hematomas, por exemplo) bem como oferecendo condições imediatas para que os animais se hidratem, se alimentem, descansem e, portanto, possam restabelecer o equilíbrio.

Diante desse cenário complexo e de alta responsabilidade, as boas práticas de manejo durante o embarque, transporte e desembarque têm como objetivo minimizar o risco de problemas de bem-estar animal, além de aumentar a probabilidade de obtenção de carcaças de boa qualidade.

Um pouco da história e do estado da arte sobre o bem-estar no transporte de bovinos no Brasil

O bem-estar dos bovinos durante o transporte tem sido objeto de estudo da comunidade científica há muitos anos e é amplamente reconhecido como uma importante fonte de estresse para os bovinos, com efeitos deletérios na saúde, no desempenho e na qualidade das carcaças e da carne quando realizado em condições que não asseguram o atendimento das necessidades mínimas dos animais.

O transporte de animais no Brasil é essencialmente rodoviário e vive um constante desafio: manter o deslocamento dos bovinos mesmo com uma malha rodoviária deficiente. Para termos uma ideia melhor do desafio, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT, 2023), o Brasil conta com 1,7 milhão de quilômetros de rodovias, dos quais apenas 12,5% são pavimentadas e destas, 67,5% possuem um estado geral regular, ruim ou péssimo. Diante disso, fica claro que essa condição provoca a necessidade de viagens por rotas mais longas, que desviem de trechos não pavimentados; ou, então, de deslocamentos pelas vias não pavimentadas onde as velocidades e condições de tráfego são inferiores às de uma via pavimentada.

Adicionalmente, os veículos para transporte de bovinos no Brasil não eram regulamentados até 2017, quando o Conselho Nacional de Trânsito publicou a Resolução Nº 675, de 21 de Junho de 2017 (CONTRAN, 2017), tratando do transporte rodoviário de animais de produção ou interesse econômico, esporte, lazer e exposição por veículo automotor; e que considera que os problemas de bem-estar animal estão, frequentemente, relacionados com as condições do ambiente físico e social, como distância percorrida, tipo e condições dos veículos, condução do veículo, densidade e composição do grupo de animais. Esta resolução estabelece em seu Art. 3º, diversos requisitos que devem ser atendidos pelos veículos de transporte de animais vivos, incluindo, por exemplo: apresentar superfícies de contato sem proeminências e elementos pontiagudos que possam ocasionar contusões ou ferimentos nos animais transportados; permitir a circulação de ar em todo o seu interior garantindo a ventilação necessária para o bem-estar animal e possuir piso antiderrapante que evite escorregões e quedas dos animais. Vale destacar que o disposto nesta Resolução se aplica a todos os veículos de transporte de animais vivos fabricados a partir de 1º de julho de 2019. Independentemente do tempo de uso, da marca ou modelo e do material usado para a construção do compartimento de carga, todos os veículos devem ser construídos ou adaptados e mantidos de forma a evitar sofrimento desnecessário e ferimentos, bem como para minimizar a agitação dos animais, a fim de garantir a manutenção da vida e o bem-estar animal.

Nos últimos 10 anos houve um aumento expressivo no número de carretas de dois pisos utilizadas para o transporte de bovinos no Brasil, para otimização do custo do frete. Quando comparadas com os modelos atuais, os antigos apresentavam uma série de dificuldades para o embarque e o desembarque de animais, o que, invariavelmente, resultava em maior risco de acidentes com os animais, hematomas nas carcaças e, no pior dos casos, na morte de animais. Avaliações sistemáticas em tempo real, realizadas pela equipe do Grupo ETCO a pedido de um conhecido grupo frigorífico brasileiro, utilizando câmeras de monitoramento instaladas nos compartimentos de carga dos veículos com dois pisos com rampa ou elevador, permitiram identificar os pontos críticos que afetavam negativamente o bem-estar dos animais como, por exemplo, porteiras mal posicionadas, degraus e pisos escorregadios, além da altura de alguns compartimentos de carga inadequada ao tamanho dos animais, rampa muito íngreme e elevador com risco de machucar os animais durante o acionamento. Essas condições resultavam, invariavelmente, em maior uso de bastão elétrico, escorregões e quedas, bem como na colisão do animal com as estruturas do veículo.

Após essas avaliações, uma série de mudanças foram feitas no desenho desses veículos de dois pisos e melhoraram, consideravelmente, o bem-estar dos animais durante o transporte. Por exemplo, existia um problema sério nas plantas frigoríficas com animais chegando com lesões severas na região do lombo e anca que, se suspeitava serem ocasionadas pela compressão dessa região do corpo contra o teto de alguns compartimentos de carga (visto que existe uma diferença significativa de altura entre eles). Havia uma pressão sendo feito pelos transportadores para autorização dos órgãos competentes para permitir que esses veículos passassem dos 4,40m de altura permitida para 4,70m. Apesar de todos os relatos, não havia dados que comprovassem e justificassem essa demanda. Foi nesse cenário que o Grupo ETCO desenvolveu, em conjunto com o grupo frigorífico mencionado acima, uma série de avaliações da altura dos animais na unidade de Diamantino-MT, utilizando uma trena a laser no box de contenção, que media a altura do animal, além da avaliação a carcaça desse mesmo animal. Foram avaliados quase 5.000 animais e mais de 60% deles apresentavam mais de 1,60m de altura (que é a altura média dos compartimentos de carga) e existia uma forte tendência de que, quanto mais alto o animal, maior a ocorrência de lesões na pele e hematomas severos na região do lombo e da anca. Esses dados foram importantes para dar relevância ao pedido do setor de transporte para aumento da altura das carretas de dois pisos, que por meio da deliberação do Contran Nº 177 de 2019, foi aumentada em 30 centímetros a altura máxima permitida para as carretas, que passou de 4,40 para 4,70 metros, sem a necessidade de autorização especial de trânsito. Em 2020, consolidou-se as normas sobre o transporte de animais de produção, de interesse econômico, de esporte, de lazer ou de exposição (CONTRAN, 2020).

Sem dúvida, essa resolução foi um passo importante para o bem-estar animal no transporte e é nítido que grande parte dos avanços no transporte de bovinos no Brasil se deu pela mensuração do seu impacto negativo na qualidade das carcaças, caracterizado pela alta ocorrência de hematomas. Embora em número menor, mas ainda expressivo, os problemas com acidente, necessidade de abate de emergência, condenação de carcaças e desvio de pH da carne, ilustram alguns dos problemas enfrentados pela indústria da carne, que refletem em perdas econômicas severas e retratam um comprometimento severo do bem-estar animal.

Adicionalmente, a capacitação dos motoristas boiadeiros tem recebido cada vez mais atenção dentro das transportadoras e das plantas frigoríficas, principalmente visto que a Portaria nº 365 de 16 de julho de 2021 (MAPA, 2021) determina que o estabelecimento de abate deve assegurar que todos os operadores envolvidos no manejo pré-abate e abate, inclusive os motoristas dos veículos transportadores de animais, sejam capacitados nos aspectos de bem-estar animal. Oferecendo condições para que esse requisito seja cumprido, o MAPA disponibiliza, dentro do programa Transporte Legal, um treinamento online gratuito sobre bem-estar animal no transporte e também oferece para todos os interessados uma publicação com recomendações de referência (Braga e colaboradores, 2020).

Boas práticas de manejo no embarque

Antes de começar o embarque:

1. Faça um bom planejamento do embarque, caracterizando todos os procedimentos necessários para a realização desse manejo, listando os materiais e equipamentos necessários, nomeando as pessoas responsáveis por fazê-lo e descrevendo, detalhadamente, como cada procedimento deve ser feito na sua fazenda (esse documento é conhecido como POP – Procedimento Operacional Padrão).

2. Reforce que a responsabilidade pelo embarque é da equipe da fazenda, enquanto a do motorista é acomodar os animais no interior dos compartimentos de carga e operar as porteiras.

3. Realize uma vistoria detalhada das instalações (incluindo as vias de acesso ao embarcadouro, o pátio de manobras, o próprio embarcadouro, os corredores, incluindo os pisos, as cercas, as paredes, as porteiras, os troncos coletivo e de contenção, o apartadouro e as demais estruturas) para se certificar de que elas se encontram em bom estado de manutenção e livre de distrações que possam atrapalhar o embarque dos animais (como por exemplo, cordas penduradas, sacos, pedaços de madeira e outros objetos no caminho a ser percorrido pelos animais).

4. Quando houver piquetes no entorno do curral, realize a sua vistoria e caso não haja, considere a possibilidade de construí-los. Esses piquetes têm o propósito de acomodar os bovinos enquanto esperam pelo embarque, principalmente no caso do transporte de animais que estão em pastos distantes do local de embarque. Considere que estes piquetes devem oferecer boas condições para alojar os animais, contando com boa disponibilidade de forragem e sombra, água de boa qualidade e cochos para o fornecimento de suplementos, se necessário.

5. Comunique com antecedência a equipe da fazenda, o horário aproximado de chegada dos veículos na propriedade e todas as informações importantes para a formação das cargas de animais.

6. Confira toda a documentação necessária para o embarque dos bovinos.

7. Avalie individualmente se os animais selecionados estão aptos para o transporte e considere que os bovinos, geralmente, viajam em pé, portanto, problemas de locomoção têm grande potencial para comprometer toda a viagem.

8. Caso precise cumprir algum protocolo sanitário, seja pela aplicação de vacinas ou antiparasitários, por exemplo, considere aplicá-los com pelo menos, 15 a 21 dias antes do transporte, pois esses manejos podem ser estressantes, que reduzem a imunidade dos animais (mesmo quando realizado da melhor forma possível), comprometendo a eficácia dos produtos veterinários.

9. Assegure que os animais que serão transportados com destino ao frigorífico cumpriram o período de carência (ver bula ou rótulo do produto) dos medicamentos aplicados; comunique ao responsável pelo local de destino dos animais o período de carência dos medicamentos. Alguns medicamentos, como antimicrobianos e antiparasitários, deixam resíduos na carne e podem afetar a saúde do consumidor, além de comprometer o comércio com países que exigem análises desses tipos de resíduos.

10. Após a chegada do veículo na fazenda, avise ao motorista e faça uma inspeção no veículo considerando as condições de conservação e limpeza, principalmente dos compartimentos de carga, que devem estar limpos (sem acúmulo de fezes e urina, por exemplo), livres de parafusos proeminentes ou qualquer outra estrutura perfurocortante e de grades do piso soltas ou com pontas salientes; não deve haver buracos no piso, nem nas divisórias ou nas laterais dos compartimentos de carga e nenhum objeto estranho. Nos casos em que os veículos não apresentem condições adequadas de manutenção e limpeza, recomenda-se não realizar o embarque dos animais.

11. Avalie o aspecto visual da carga, pois os animais podem apresentar diferenças em sua conformação corporal, devido à raça ou ao sistema de terminação. De maneira simples, não deve haver espaço demais entre os animais tampouco devem estar apertados.

12. Converse sempre com o motorista e defina com ele um plano para a realização do embarque, cumprindo os horários e etapas combinadas.

13. Disponibilize acesso a banheiros e um local com água e, se possível café. Nos casos em que houver algum atraso no horário combinado, sempre que possível, ofereça um lanche ou refeição completa, dependendo do horário, além de uma área de descanso para os motoristas.

Durante a realização do embarque:

14. Conduza os animais do seu local de origem para o curral de manejo, sempre ao passo e mantendo um ritmo calmo.

15. Considere ter, pelo menos, um vaqueiro montado à frente do lote (o ponteiro) e outro atrás (o culatra). Isso fará com que os animais cheguem ao curral menos cansados e mais tranquilos, minimizando o risco de acidentes, mistura de lotes e perda de controle sobre os animais.

16. Se não tiver piquetes disponíveis no entorno do curral, acomode os animais em pastos mais próximos no dia anterior ao transporte; caso não seja possível, reduza ao mínimo o tempo necessário que os animais passam dentro do curral para que possam ser embarcados e seguirem viagem.

17. Disponibilize água em quantidade e qualidade satisfatórias para todos os animais que serão embarcados até minutos antes do embarque.

18. Evite misturar animais de diferentes lotes ou de diferentes categorias, antes do embarque, pois essa mistura causa uma série de inconvenientes, resultando em aumento da agressividade e do risco de acidentes com os animais, pela definição da hierarquia de dominância, além de aumentar a probabilidade de comprometimento do pH da carne.

19. Faça um planejamento prévio e repasse aos vaqueiros todas as instruções, de modo claro, sobre a função que cada um irá executar durante o embarque.

20. Assegure-se de que só estejam presentes no curral de manejo e no seu entorno apenas as pessoas necessárias para a realização do manejo de embarque.

21. Prepare os lotes de embarque de acordo com a capacidade de cada veículo boiadeiro, e subdivida os lotes em grupos menores, proporcionais à capacidade de carga de cada um doscompartimentos do veículo.

22. Oriente o motorista do veículo a estacionar bem no embarcadouro, evitando espaços e brechas entre a carroceria e o desembarcadouro.

23. Conduza sempre o grupo de animais compatível com a carga do compartimento, da maneira que estão acostumados a trabalhar (a pé ou a cavalo), com calma, sem correr, sem gritar e sem fazer movimentos bruscos.

24. Garanta que o grupo de animais que está conduzindo tenha espaço suficiente para se movimentar e visualizar, claramente, o caminho que deve seguir.

25. Os vaqueiros que estiverem trabalhando na passarela do embarcadouro devem usar os conceitos de zona de fuga e ponto de equilíbrio para movimentar os animais e estimulá-los a caminhar pelo embarcadouro.

26. Os vaqueiros também devem estar cientes, principalmente, de que que o primeiro animal de cada pequeno grupo a entrar no veículo pode parar, abaixar a cabeça para ver melhor o caminho que irá percorrer e cheirar as estruturas para buscar informações sobre o ambiente. Dê a eles alguns segundos para que identifiquem a nova situação.

27. O vaqueiro que estiver na passarela deve se manter fora do campo de visão (por vezes, abaixado ao final do embarcadouro) do grupo de animais que estiver sendo conduzido para o embarcadouro, por outro vaqueiro. Do contrário, eles irão parar. Quando os animais estiverem dentro do embarcadouro, o mesmo vaqueiro deve se levantar e ajudar na condução dos bovinos.

28. Após a entrada do primeiro grupo de animais, feche a porteira do compartimento traseiro e trabalhe para acomodar os animais no compartimento em que serão transportados. Um dos vaqueiros deve estimular os animais a entrarem nesse compartimento com o uso da voz, de aboios ou da bandeira, se posicionando na lateral do veículo, enquanto outro vaqueiro ou o motorista cuida da porteira do embarcadouro, que deve ser fechada logo após a passagem do último animal.

29. São considerados instrumentos de manejo dos bovinos a voz, os aboios e as bandeiras de manejo e, em último caso, o bastão elétrico, que só pode ser usado em bovinos adultos, mas nunca em áreas mais sensíveis do corpo dos animais como, por exemplo, a cabeça, o anus, as regiões genitais, por mais de nem um segundo de contato com o corpo do animal.

30. Após acomodar o primeiro grupo no compartimento da frente, o motorista deve fechar a porteira desse compartimento com cuidado, evitando atingir o corpo do animal, para, em seguida, abrir novamente a porteira do embarcadouro para dar sequência ao embarque, realizando o procedimento descrito anteriormente, até que todos os animais sejam embarcados.

31. Atenção! No caso de algum animal cair ou se deitar no embarcadouro, pare o manejo e levante-o imediatamente. Não permita que os outros animais passem por cima dele, afastando-os e fechando a porteira para que quem vem de trás não consiga acessá-lo.

32. Após completar o carregamento dos animais no veículo e antes de iniciar a viagem, o motorista deve estacionar o veículo em local sombreado próximo ao embarcadouro e esperar alguns minutos para que os animais se acomodem nos compartimentos de carga. Lembre-se de que a ventilação em veículos parados é quase inexistente, aumentando o risco de estresse por calor.

33. Assim que perceber que os animais se acomodaram e pararam de balançar e mudar de posição, o motorista deve iniciar a viagem. Com esses minutos de espera, o risco de os animais caírem durante o início da viagem é menor e esse período é, normalmente, mais crítico, pois envolve o trânsito em estrada de terra.

Boas práticas de manejo na preparação para a viagem e a viagem

1. Faça o planejamento da viagem, contemplando desde a preparação dos animais no local de origem até o desembarque no destino final, e inclua um plano de contingência e de emergência. Esse planejamento deve ser realizado de forma coordenada com a transportadora, os motoristas e os responsáveis pelo desembarque no local de destino.

2. Conheça a rota de viagem, a distância entre o local de origem e destino dos animais e tenha informações atualizadas sobre a qualidade e a segurança das estradas. Com isso em mãos, pode-se estimar a duração da viagem e os potenciais riscos de comprometimento do bem-estar dos animais.

3. Informe-se, com antecedência, sobre as características do veículo que irá transportar os animais, incluindo o tipo e o peso máximo permitido para tráfego, além da altura, largura, comprimento e número de compartimentos de carga. Paralelamente, tenha informações sobre o número, o peso, a categoria e raça dos animais que serão transportados. Com essas informações em mãos, avalie se o veículo é adequado para o transporte dos seus animais e calcule o número de animais que deve ser embarcado em cada compartimento. Para isso, use as tabelas de recomendações de espaço disponível por animal (metro linear por animal; ver Tabela I logo adiante), que são focadas no peso dos animais e no comportamento de viajarem posicionados perpendicularmente ao eixo do veículo.

4. Considere que o espaço disponível por bovino adulto deve ser o suficiente para que permaneçam em pé confortavelmente e possam se mover um pouco para frente, para trás e para os lados (sem que qualquer parte do seu corpo, incluindo cabeça, cupim ou dorso, entre em contato com as porteiras, o teto ou o piso superior, no caso de veículos de dois andares), o que os ajuda a manter o equilíbrio com o movimento do veículo, além de permitir fluxo de ar entre os animais, favorecendo a termorregulação.

5. Prepare toda a documentação necessária para o transporte dos bovinos (a Guia de Trânsito Animal (GTA), as notas fiscais do produtor (com informações sobre a origem e o destino dos animais) e, quando necessário, os documentos de identificação animal e laudos veterinários) e confira as documentações necessárias do motorista e do veículo.

6. Avalie a aptidão dos animais para o transporte.

7. Caso não seja possível evitar as viagens de longa duração, considere que a partir de 8 horas de duração, deve-se realizar paradas para os animais beberem água, se alimentarem e descansarem, o que, muitas vezes, por conta da falta de infraestrutura, bem como do estresse adicional dos manejos dos animais, é de difícil execução prática.

8. Concentre-se em evitar viagens de longa duração e sempre ofereça acesso a água, alimento de boa qualidade e a local confortável para descanso até minutos antes do embarque e essa mesma condição deve ser oferecida após o desembarque, salvo exceções para o atendimento das normas do MAPA para frigoríficos.

9. Converse com o motorista e reforce a importância de conduzir o veículo com cuidado, mantendo velocidade compatível com a via de trânsito e sem freadas e acelerações bruscas, minimizando, assim, os riscos de problemas com o bem-estar dos animais.

10. Considere que a duração ideal da viagem é a menor possível, desde que realizada utilizando-se a direção preventiva e deve-se evitar paradas desnecessárias ou prolongadas para minimizar o risco de estresse por calor, devido à diminuição da ventilação.

11. O motorista deve realizar paradas regulares para inspecionar os animais, pois o risco de quedas é alto, o que pode resultar no pisoteio e na morte do animal, considerando:

11.1. Trechos curtos de estradas de terra ou estradas em mau estado de conservação: duas inspeções, uma no início da viagem e outra no local da transição da estrada de terra para o asfalto.

11.2. Trechos longos de estradas de terra em mau estado de conservação: paradas intermediárias (rápidas), pelo menos a cada uma hora.

11.3. Trechos com estradas asfaltadas ou com boas condições de tráfego: inspecionar os animais aproveitando as paradas para abastecimento ou para o atendimento de suas necessidades (por exemplo, alimentação e descanso).

12. O motorista deve considerar como instrumentos auxiliares de manejo para incentivar os animais a se levantarem, o uso da sua voz, os aboios e a bandeira de manejo.

13. Se esses estímulos não forem suficientes para levantar um animal deitado, que não tem nenhum comprometimento físico (ferimento, fraturas ou incoordenação motora, por exemplo) e tem espaço para se levantar, ele deve usar o bastão elétrico racionalmente, sempre no quarto traseiro e por, no máximo, um segundo (um toque), para estimulá-lo a se levantar.

14. Durante a inspeção o motorista também deve se atentar aos sinais de estresse por calor (bovinos apresentam respiração ofegante com boca aberta e salivação), ou por frio (bovinos apresentam os pelos arrepiados e tremores musculares).

15. Sempre que forem encontradas situações anormais dentro dos compartimentos de carga e que estejam fora do controle do motorista, ele deve seguir os procedimentos descritos para cada caso no plano de contingência e emergência, que deverá estar disponível na cabine do veículo e entrar em contato com o responsável pela equipe de transporte, informando o ocorrido.

16. A qualidade da viagem deve ser avaliada pela comparação das condições dos animais, antes do embarque e após o desembarque. Quanto mais próximas estiverem essas condições, melhores foram as condições da viagem, o contrário também é verdadeiro.

Boas práticas de manejo no desembarque e na recepção dos animais na fazenda

Antes de realizar o desembarque

1. Faça um bom planejamento do desembarque, caracterizando todos os procedimentos necessários para a realização desse manejo, listando os materiais e equipamentos necessários, nomeando as pessoas responsáveis por fazê-lo e descrevendo, detalhadamente, como cada procedimento deve ser feito na sua fazenda (esse documento é conhecido como POP – Procedimento Operacional Padrão).

2. Realize uma vistoria detalhada das instalações (incluindo as vias de acesso ao desembarcadouro, o pátio de manobras, o próprio desembarcadouro e os corredores de acesso às remangas, incluindo os pisos, as cercas, as paredes e as porteiras) para se certificar de que elas se encontram em bom estado de manutenção e livre de distrações que possam atrapalhar o desembarque dos animais (como por exemplo, cordas penduradas, sacos, pedaços de madeira, e outros objetos no caminho a ser percorrido pelos animais).

3. Tenha em mente que o caminho percorrido pelos bovinos após o desembarque será mais seguro se dispor de piso antiderrapante (nas áreas de maior risco de escorregões ou quedas, como nas rampas, curvas e corredores, por exemplo), laterais fechadas no desembarcadouro e livre de distrações (pessoas e objetos no meio do caminho, por exemplo).

4. Avalie as condições dos piquetes de recepção, onde os animais deverão ser acomodados imediatamente após o desembarque; considere que essas áreas preferencialmente, devem ser próximas ao curral de manejo ou ao desembarcadouro, com forragem e água disponível, em quantidade e qualidade satisfatórias para os animais, assim como devem oferecer local confortável, com disponibilidade de sombra, para descanso.

5. Comunique a equipe da fazenda, o horário aproximado de chegada dos veículos na propriedade, definindo o papel de cada um no processo de desembarque, para que o mesmo possa ser realizado prezando-se pelo bem-estar e segurança dos animais e das pessoas.

Para realizar o desembarque propriamente dito

6. Oriente o motorista do veículo a estacionar bem no desembarcadouro, evitando espaços e brechas desnecessários entre a carroceria e o desembarcadouro.

7. Após o estacionamento do veículo, aguarde alguns minutos para os animais se acostumarem com a ausência do movimento do veículo e se acomodarem melhor dentro do veículo.

8. Faça a inspeção dos animais dentro dos compartimentos de carga antes da abertura das porteiras do veículo, considerando a condição física e se há animais deitados.

9. Considere que animais que apresentem sinais de problemas de saúde devem receber cuidados especiais e atendimento veterinário imediato e que animais deitados devem ser levantados antes de se iniciar o desembarque (veja as condições a seguir em animais não aptos para o transporte).

10. Considere como instrumentos auxiliares de manejo, para incentivar os animais a se levantarem e desembarcarem do veículo, o uso da sua voz, de aboios e de bandeira de manejo.

11. Se esses estímulos não forem suficientes e for identificado que o animal não tem nenhum comprometimento físico (ferimento, fraturas ou incoordenação motora, por exemplo), e tem espaço para se levantar, use o bastão elétrico racionalmente, sempre no quarto traseiro e por, no máximo, um segundo (um toque), para estimulá-lo a se levantar e desembarcar do veículo.

12. Caso seja identificado que o animal não se levantou devido a alguma fratura, ou lesão menos traumática ou doença, acione o veterinário responsável pela propriedade e ele definirá os próximos passos. Recomenda-se que a equipe responsável pela recepção dos animais tenha em mãos um procedimento operacional específico para animais que necessitam de cuidados e atenção especial. Em alguns casos pode ser necessário realizar a eutanásia do animal dentro do veículo ou buscar tratamento veterinário específico. Se o animal não tem condições de desembarcar do veículo, os procedimentos devem ser realizados no local onde o animal se encontra, sempre prezando pela segurança das pessoas.

13. Sempre inicie pela abertura da porteira traseira, desembarcando os animais que estão no compartimento traseiro do veículo. Quando o último animal do compartimento traseiro estiver saindo do veículo, abra a porteira do compartimento seguinte e assim por diante, até o último compartimento.

14. Lembre-se de que os bovinos não têm boa percepção de profundidade (visão binocular), portanto, dê tempo para que eles abaixem a cabeça para ter uma visão melhor do caminho por onde terão que passar, não o pressione. Isso vai acontecer com o primeiro animal e levará poucos segundos e os demais tendem a segui-lo pois são gregários e querem permanecer juntos; portanto, permita que os animais do compartimento a ser desembarcado possam ver o animal do compartimento anterior saindo do veículo, e eles o seguirão.

15. Quando os animais iniciarem o deslocamento em direção à porteira de saída, simplesmente afaste-se e mantenha-se em silêncio pois a pressão excessiva e o barulho aumentam a velocidade de saída dos animais.

16. Abra sempre as porteiras completamente e amarre-as de tal maneira que não fechem durante a passagem dos animais nem colidam com qualquer parte do corpo do animal.

Conceitos importantes

Animais não aptos para o transporte:  os desafios do transporte são mais intensos para os animais que não estão aptos, e com isso, correm maior risco de sofrerem estresse severo e de não serem capazes de se manterem em pé durante a viagem, com alto risco de serem pisoteados, o que, nos casos extremos, pode resultar na morte dos animais. O ideal é que esses animais se recuperem antes de serem submetidos ao transporte. Nos casos em que isto não é possível, eles devem ser transportados em condições especiais, sob supervisão de um médico veterinário. Caso tenha dificuldade para definir se o animal está ou não apto para o transporte, consulte um médico veterinário. Destacamos que animais não aptos para o transporte não devem ser empurrados, arrastados e tampouco suspensos como forma de movimentá-los.

São considerados não aptos ao transporte:
1. Animais incapazes de se locomover por seus próprios meios.
2. Animais com dificuldade para se locomover ou manter-se em pé, e que não distribuem uniformemente o peso nas quatro patas.
3. Animais extremamente magros ou emaciados.
4. Fêmeas em estágio avançado de gestação.
5. Fêmeas recém-paridas (que pariram há menos de uma semana ou com vestígios de placenta) e bezerros recém-nascidos com umbigos não cicatrizados.
6. Animais com feridas graves abertas ou fechadas com pontos de sutura.
7. Animais doentes, lesionados, feridos, fraturados, incapacitados ou fadigados ou que não podem ser movidos sem sofrimento adicional.
8. Animais com prolapso de retal, vaginal ou uterino.

Recomendações para a construção ou reforma de embarcadouro\desembarcadouro ideal:
1. O embarcadouro ideal não tem rampa e deve estar no mesmo nível do piso do compartimento de carga do veículo para o transporte dos bovinos.
2. Caso haja rampa no embarcadouro, esta deve ser suave, com ângulo de, no máximo, 20°, e recomenda-se que o último lance do embarcadouro (com cerca de 2,5 a 3 m de comprimento) esteja no mesmo nível do compartimento de carga dos veículos.
3. As paredes laterais devem ser fechadas e lisas, sem saliências ou estruturas perfurocortantes nas paredes internas, para evitar que os animais se machuquem ou se distraiam, com a formação de sombras ou com o movimento de pessoas ou trânsito de veículos no entorno. Nos casos em que as paredes são totalmente fechadas, deve-se ter passarelas laterais com protetor de corpos.
4. O piso deve ter estruturas antiderrapantes para minimizar o risco de escorregões e quedas, que podem machucar os animais, sendo recomendado o uso de placas de borracha ou piso cimentado com estruturas antiderrapantes, tanto na rampa quanto na superfície plana.
5. Ao final do embarcadouro é importante ter uma porteira, de preferência de correr lateralmente (popularmente conhecida como “pente”), para controlar mais facilmente a entrada ou a saída dos animais do veículo.

Visão monocular e binocular: como os olhos dos bovinos estão posicionados mais lateralmente na cabeça, seu campo de visão monocular é muito amplo de cerca de 300°, considerado uma visão panorâmica, que confere uma alta capacidade de detectar movimentos embora tenha baixa acuidade visual. Paralelamente, eles têm um campo de visão binocular (que confere a capacidade de avaliar profundidade) bastante limitado de cerca de 30°à frente dos seus olhos, onde ocorre a combinação de duas imagens (uma de cada olho) e, portanto, é criada a percepção de profundidade. Assim, se os bovinos precisarem ver algo claramente, será necessário que o objeto esteja diretamente na frente de sua cabeça. É por isso que eles abaixam a cabeça para tentar ter uma imagem mais nítida do desembarcadouro durante o desembarque. Portanto, dê tempo aos animais, nesse momento, para o processamento das informações e eles desembarcarão.

Comportamento gregário: os bovinos são animais gregários, ou seja, vivem em grupo. Portanto, estar em um grupo é importante para a sobrevivência destes animais, por isso eles sempre mantêm contato visual com os outros membros do grupo e apresentam suas atividades sincronizadas, ou seja, bebem água, pastejam, descansam e caminham ao mesmo tempo. Se um bovino é isolado dos demais membros do seu grupo por muito tempo, ele se tornará agitado e perigoso, dificultando o manejo e aumentando o risco de acidentes. É por isso que durante o desembarque, após a saída do primeiro animal do veículo, os demais tendem a segui-los pois eles querem permanecer juntos, em grupo. Aproveite esse comportamento natural, e durante o desembarque, permita que os animais do compartimento a ser desembarcado possam ver o animal do compartimento anterior saindo do veículo.

Uso do bastão elétrico: o bastão elétrico só deve ser usado como última alternativa para desembarcar os animais, depois de todas as outras, menos aversivas, não terem funcionado (uso da voz, aboios e bandeiras). Dentro dos compartimentos de carga do veículo, diante da restrição de espaço e do ambiente fechado e escuro, o uso do bastão elétrico ativa o sistema de pânico dos animais, deixando-os mais agitados, o que dificulta ainda mais o desembarque. Considere, também, que quando o vaqueiro ou o motorista está posicionado na lateral da carroceria, ele não consegue enxergar bem dentro dos compartimentos, correndo-se o risco de aplicar choques em partes mais sensíveis (como olho, focinho, ânus e regiões genitais, por exemplo) do animal, o que é considerado ato de abuso.

Tabela 1. Espaço linear (m/animal) em função do peso vivo para transporte.

Conheça todas as Boas Práticas de Manejo

plugins premium WordPress