Boas práticas de manejo com a
Tropa de Lida
O rebanho brasileiro de equinos possui aproximadamente 5,8 milhões de animais (IBGE, 2022), dos quais 72% estão inseridos em atividades agropecuárias, sendo a maioria utilizada em tropas de lida na criação de bovinos (Lima e Cintra, 2016).
Apesar da longa história de trabalho e de interação entre os humanos e os equídeos, os cuidados com a tropa de lida nas fazendas de bovinos de corte brasileiras ainda é deficiente e pode ser caracterizada por situações corriqueiras durante o manejo com os bovinos que tem potencial para comprometer o bem-estar desses animais, incluindo mas não limitando-se a:
I) ocorrência de longa jornada de trabalho, agravada pela ausência de descanso por período suficiente para total recuperação;
II) permanência dos equídeos amarrados por longos períodos e muitas vezes com a barrigueira apertada, como por exemplo durante o manejo dos bovinos no curral sem acesso à água, alimento ou sombra;
III) condições inadequadas de nutrição e alimentação, raramente são mantidos em pastos específicos para eles com forragens em quantidade e qualidade satisfatórias, mais raro ainda receberem suplemento específico;
IV) presença de lesões decorrentes de manejos inadequados ou equipamentos impróprios para o uso; e
V) deficiências na adoção de protocolos sanitários e nutricionais para esses animais.
Apesar desses animais estarem diretamente relacionados ao trabalho com os bovinos de corte, a adoção das boas práticas de manejo e bem-estar animal é muito deficiente e deve receber atenção especial, garantindo melhores condições de vida e de trabalho aos animais da tropa de lida, refletindo consequentemente em maior longevidade da tropa.
No ano de 2006 foi publicado o trabalho “Complexo do Agronegócio do Cavalo”, e esta foi a primeira vez que uma publicação buscava dimensionar a importância econômica e social do cavalo no Brasil. Desde então, apesar de observar a incorporação de maquinário e tecnologia de última geração no campo, os equídeos continuam a ter papel decisivo para o desenvolvimento de atividades pecuárias e agrícolas na grande maioria das fazendas de bovinos de corte brasileiras.
Apesar da importância indiscutível desses animais no trabalho com os bovinos, existe pouca informação sobre seus bem-estar no Brasil. Já na literatura internacional, diversos protocolos de avaliação de bem-estar de equídeos estão disponíveis, com a grande maioria sendo específica para os cavalos que, assim como outros protocolos espécie-específicos, contemplam uma série de indicadores baseados no animal e no ambiente como um todo, incluindo medidas relacionadas ao comportamento dos animais e sua interação com os humanos, aspectos de saúde, disponibilidade de recursos incluindo os nutricionais, bem como as situações vivenciadas durante o manejo e criação dos animais.
O grande desafio é que esses protocolos foram desenvolvidos considerando que esses animais são alojados em baias individuais, sendo indicadores importantes, por exemplo, as dimensões das baias, limpeza da cama bem como a possibilidade de interações sociais com outros animais, o que difere totalmente do manejo e das condições de criação da tropa de lida no Brasil, que são alojados em grupos e mantidos em condições de pastagens e enfrentam outros desafios de bem-estar animal.
Um dos poucos estudos encontrados no Brasil, originado no Grupo ETCO, buscou preencher essa lacuna do conhecimento e encontrou validade em diversos indicadores descritos em dois protocolos internacionais para avaliar o bem-estar de equinos e muares em fazendas comerciais de bovinos de corte, com exceção dos indicadores de expressão fácil e, paralelamente, mostrou a falta de indicadores baseados no ambiente de criação e manejo desses animais no Brasil. Além disso, deve-se ter em conta que há deficiência na capacitação das pessoas para adoção de estratégias de manejo e criação que atendam às necessidades básicas dos equídeos utilizados para trabalho nas fazendas de bovinos de corte brasileiras.
1. Certifique-se de que a fazenda disponha de pastos ou piquetes próprios para a tropa e que os animais tenham acesso a água de boa qualidade e suplementos, específicos para eles, em quantidade e qualidade satisfatórias.
2. Assegure o fornecimento de concentrado, no mínimo, duas vezes ao dia, antes de serem arreados pela manhã e após o trabalho. A quantidade de concentrado vai depender da qualidade da forragem e deve ser recomendado por um técnico especialista em nutrição animal.
3. O ideal é que cada vaqueiro disponha de, pelo menos, três animais. O número de animais por vaqueiro irá variar de acordo com o tipo de serviço realizado, clima e topografia.
4. Os animais da tropa devem trabalhar no máximo por 6 horas por dia e descansar no mínimo entre 24 e 48 horas após um dia de trabalho. Segundo a Organização Mundial de Saúde Animal, os animais devem descansar ao menos um dia ou, de preferência, dois dias completos a cada sete dias. Acrescenta que se deve levar em conta as condições climáticas (reduzir o trabalho em dias muito quentes) e, a cada duas horas, deve-se oferecer água potável e deixar os animais descansarem.
5. Avalie os animais diariamente, observando: pisaduras provenientes do arreio ou sela, outras lesões no corpo, lesões na boca devido freio ou bridão, escore de condição corporal, presença de corrimento nasal e/ou ocular, presença de espirro e/ou tosse, assadura, lesões nos dentes ou gengiva, integridade dos cascos, andamento e comportamento. Qualquer anormalidade deve ser tratada imediatamente seguindo o protocolo de tratamento proposto por um médico veterinário.
6. Atenção! Animais com pisaduras, assadura e problemas de casco não devem ser arreados, da mesma forma aqueles que se encontrarem em condições que debilitam sua saúde, até que se recuperem totalmente.
7. Tenha definido um calendário de vacinações e de controle de parasitas para a tropa de lida, seguindo a recomendação de um médico veterinário.
8. Registre todas as ocorrências de tratamentos (curativos ou profiláticos) realizados em cada animal.
9. Certifique-se sempre de que todo material utilizado para arrear os animais esteja em boas condições de uso.
10. Antes e depois de arrear, escove o animal e limpe seus cascos.
11. Após chegarem no curral ou qualquer outro lugar em que a tropa terá que ficar arreada esperando os vaqueiros, afrouxe a barrigueira e retire a cabeçada do animal. Além disso, os mantenha na sombra e, de preferência, com acesso a água.
12. Se no meio do dia de trabalho perceber que o animal está ofegante e cansado, troque de animal para continuar o serviço no período da tarde.
13. Ao finalizar o trabalho, desarreie imediatamente o animal. Coloque a manta e/ou pelego em um local ventilado para secar, lave a embocadura utilizada e lave os animais.
14. Inicie o banho do animal molhando as patas por alguns segundos, depois os membros e por fim as demais partes do corpo, se atentando a lavar muito bem a região das axilas e virilha.
15. Jamais agrida os animais da tropa (bata, chicoteie, use força na rédea, assuste e/ou utilize esporas com pontas). Esses animais têm boa memória e são sencientes e devem executar seu trabalho por respeito e colaboração com o humano e nunca por medo.
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