Por Romualdo Venâncio, de Altamira e Brasil Novo (PA)
O volume, a qualidade e a abrangência dos dados sobre cada animal na cadeia produtiva de carne bovina têm relação direta com a segurança do setor. Em todos os sentidos. As informações que se conectam à identificação do gado, desde o desempenho zootécnico até os protocolos fundiários, ambientais e socioeconômicos da propriedade, tornam a pecuária brasileira mais transparente e mais alinhada com o conceito global de produção sustentável. E ainda fortalecem a imagem institucional da atividade, ampliando as oportunidades comerciais dentro e fora do País. Todos esses fatores se relacionam com a rastreabilidade.
Em 2025, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) implementou o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), com a meta de abranger todo o rebanho brasileiro, cabeça a cabeça, até o final de 2032. Ao término desse prazo, cada bovino ou bubalino deverá estar identificado antes da primeira movimentação. O objetivo é aprimorar o controle sanitário e a qualidade e a segurança alimentar, além de ampliar o acesso a mercados internacionais.
Conforme o IBGE, o Pará abriga o segundo maior rebanho bovino do País, com mais de 25,5 milhões de cabeças, e tem a maior população de bubalinos, com mais de 775 mil cabeças. Em setembro de 2024, o próprio governador Helder Barbalho fez a identificação do primeiro animal no Sistema de Rastreabilidade Bovídea Individual do Pará (SRBIPA), programa que visa identificar todos os bovinos e bubalinos em trânsito até o final de 2026. “Já em janeiro de 2026, o produtor que não aderir à rastreabilidade não conseguirá movimentar seus animais”, afirma o gerente regional da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará) em Altamira, Rubens Morais. A região, que está dentro da Amazônia, abrange ainda outros sete municípios (Anapu, Brasil Novo, Medicilândia, Placas, Senador José Porfírio, Uruará e Vitória do Xingu). “Nessa área, temos um rebanho com mais de 3 milhões de cabeças, com predominância do gado de corte.”
É exatamente em Brasil Novo que está o Sítio São João, propriedade de João Meira Rocha (conhecido localmente como “Meirinha”), destaque no quarto episódio da série Top Sustainable Livestock, iniciativa dedicada a demonstrar como a pecuária pode unir produtividade, rentabilidade e responsabilidade socioambiental. Por meio de exemplos concretos já aplicados no País, a série revela caminhos reais para transformar o setor em um modelo de produção sustentável, provando que preservar e prosperar podem caminhar lado a lado. Ela será veiculada no Canal Terraviva, do Grupo Bandeirantes, e é realizada por PLANT PROJECT em parceria com a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável (MBPS), com apoio dos projetos SAFe e ProTS, implementados pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH em parceria com o Mapa, IDH Transforming Markets, MSD Saúde Animal e ApexBrasil.

O Sítio São João é um exemplo de como a rastreabilidade pode integrar a gestão e o manejo de propriedades rurais com os mais diversos perfis, independentemente da dimensão. Embora ainda não tenha implementado essa prática de maneira oficial na propriedade, Meirinha já aproveita os benefícios da identificação do gado e diz estar pronto para abraçar essa transição. “Acho que vai ser bem interessante pra gente”, afirma o pecuarista. “Já tenho o hábito de numerar todas as minhas matrizes e todos os animais que nascem.” O controle individual que faz parte do manejo do rebanho é facilitado pela estrutura disponível.
O tronco de contenção aumenta a eficiência no trato com os animais e evita riscos de acidentes. Ter uma balança acoplada é um diferencial, ainda que não seja eletrônica, um upgrade que está nos planos do pecuarista. O investimento nesses equipamentos, que chegou a ser alvo de críticas de alguns vizinhos, segundo Meirinha, mostrou-se essencial para superar um dos principais desafios na implementação da rastreabilidade. “Há produtores que não têm essa estrutura, não têm um tronco para conter os animais. Isso gera desconforto e risco, para o gado e para o vaqueiro”, diz o professor de zootecnia da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Pará (UFPA), Salim Jacaúna. “É desafiador, e acredito que isso será superado e as vantagens virão.”
O acadêmico destaca a relevância da rastreabilidade, inclusive pelo controle alcançado dentro das propriedades. “Uma vez que essa prática se consolidar, vai criar uma imagem de que estamos trabalhando de forma correta, produzindo um animal de qualidade, e isso vai nos levar a mercados mais exigentes, além de o pecuarista poder alcançar melhor remuneração”, diz Jacaúna. O avanço desse processo contribui para a sustentabilidade econômica, social e ambiental da pecuária, com a inserção de um quarto pilar, que é o bem-estar animal. “Sem esse quarto item, não há como o rebanho desempenhar tudo o que é capaz. É preciso lhe oferecer um ambiente favorável.”
Essas vantagens também são enfatizadas pelo gerente regional da Adepará. De acordo com Morais, a rastreabilidade ainda permite a identificação de doenças dentro de um rebanho, por agrupar diversas informações. “E tem a questão do aumento de preço, por se tratar de uma exigência de mercado”, afirma Morais. “Quando há mudança, quando surge algo novo, é um desafio, mas estamos avançando com orientação e esclarecimento por vários meios de comunicação.” A regional já colocou o brinco de identificação em mais de 10 mil animais.

A adesão à rastreabilidade tende a valorizar as iniciativas tomadas por Meirinha para elevar o nível de sustentabilidade de sua atividade, e os passos dados rumo à profissionalização. Boa parte dessa progressão é voltada aos cuidados com o solo, com a recuperação e a preservação de terras que estavam degradadas. Segundo Meirinha, a região foi aberta sem o devido cuidado com a preservação. “Ninguém se preocupou com a manutenção do solo, com degradação em geral e com o meio ambiente”, afirma o pecuarista. Essa condição amplia a fragilidade frente aos desafios climáticos. “Estamos vendo um aquecimento muito fora do normal. Precisamos melhorar a situação para permanecer na terra.”
Entre 2023 e 2024, dezenas de municípios paraenses enfrentaram uma seca fora do comum, que provocou perdas enormes na produção agropecuária. Na região de Altamira, o fenômeno foi considerado o pior dos últimos 40 anos. O gado sofreu com a falta de pastagem e a escassez de água. “Ninguém estava preparado para uma situação como aquela, o prejuízo foi muito grande”, lembra Meirinha. O quadro só não foi pior no Sítio São João porque há cerca de 12 anos foi implementado um sistema de produção com integração pecuária-floresta, com o plantio de mogno-africano em área de pastagem. Essa combinação, fruto de uma parceria com a Embrapa e com a Secretaria de Agricultura de Brasil Novo, garantiu sombra para os animais e matéria orgânica para enriquecer o solo, com as folhas caídas das próprias árvores.

Na propriedade de aproximadamente 140 hectares, onde grande parte deve ser preservada, Meirinha conta com 80 matrizes Nelore na base da produção com ciclo completo (cria, recria e engorda). O pecuarista tem investido em estratégias de manejo para tornar o negócio mais eficiente e sustentável, e pretende ampliá-las. Na busca por informações e aprendizado, há quatro anos Meirinha fez um curso de gestão de pecuária de corte na instituição de ensino Rehagro. “Aprendi muito sobre pastejo rotacionado, recuperação de solo, e estamos evoluindo muito nesse sentido”, diz.
O plano agora é colocar árvores também nas outras áreas da propriedade, em todos os piquetes, que estão passando por um novo dimensionamento para aumentar a produtividade e ser cada vez mais sustentável. Nos piquetes onde Meirinha conseguiu terminar cerca de 80 animais, todos a pasto com suplementação de proteico energético no período das chuvas e ganho de peso de até 30 quilos em um mês, a meta é chegar a 100 cabeças. Para isso, o pecuarista prevê a redução do tamanho dos piquetes, a implantação de um sistema de irrigação e um reforço na adubação.
A ideia é que essas melhorias gerem um círculo virtuoso, e permitam novos passos como a integração lavoura-pecuária. Em uma área de 10 hectares, Meirinha vai plantar milho junto com o capim. Na verdade, o grão será semeado primeiro e, após 20 dias, entrará o plantio do pasto. Quando o milho for colhido, ficará a pastagem rica em nutrientes para alimentar o gado. O cereal será utilizado como suplementação. “Futuramente, pretendo adquirir os equipamentos adequados para fazer silagem também”, diz o produtor. Outros pontos de melhoria estão no campo da reprodução.

Meirinha já começou a retirar os touros do rebanho, para eliminar a monta natural e trabalhar apenas com inseminação artificial. Essa troca aumentará a pressão de seleção sobre as matrizes. Fêmeas fracas de leite ou que não criam bem seus bezerros são fortes candidatas ao descarte, sendo substituídas por outras criadas na própria fazenda. “A inseminação permite evoluir mais rápido, melhorando a genética e, a partir daí, com suplementação, forragem e água de qualidade, dentro de um sistema de rotação de piquetes, o animal de abate sai mais rápido da propriedade”, diz o pecuarista.
Para acelerar ainda mais o processo, o produtor vai acrescentar o uso do creep feeding, sistema para suplementação exclusiva de bezerros, no qual outros animais não têm acesso ao coxo, nem mesmo as próprias mães. Dessa forma, a alimentação fica mais eficiente e contribui para se chegar a um boi de 20 arrobas em um ano e meio, segundo Meirinha. Com um olho no rebanho e outro nas cotações de boi gordo e de bezerros, o pecuarista está pronto para aproveitar as oportunidades de faturar mais alto quando o mercado estiver favorável. E fazer valer ainda mais o investimento em rastreabilidade.

Cada vez mais, os debates e as ações relacionados à sustentabilidade da pecuária migram da instância da viabilidade para o campo da importância estratégica. E a rastreabilidade é uma ferramenta essencial nessa transição. A evolução passa, no entanto, pelo avanço de outras questões. Para o secretário de Agricultura de Altamira, Sérgio Vieira Mota, implementar a rastreabilidade de bovinos não será difícil, mas, como esse processo estará atrelado à condição ambiental da propriedade, também é necessário resolver pendências fundiárias. “A regularização ambiental depende da fundiária”, diz Mota.
A preocupação do secretário de Altamira é compartilhada com o professor Jacaúna, que ressalta a urgência de se resolver a comprovação da titularidade das terras. Sobretudo quando se fala do maior município do Brasil – Altamira tem quase 160 mil quilômetros quadrados de extensão territorial – e da importância da região para a produção pecuária e para a preservação. “Pelo menos 92% da área do município é de vegetação nativa”, diz. A implementação da rastreabilidade e a consolidação da pecuária sustentável impactam diretamente a reputação do País, a preservação ambiental e a segurança alimentar de milhões de pessoas.
Fonte: Plant Project





