A sustentabilidade da pecuária brasileira voltou ao centro dos debates durante a Feira Brasil na Mesa, realizada na Embrapa Cerrados, no Distrito Federal. Pesquisadores da Embrapa defenderam que o avanço da ciência e da tecnologia tem sido fundamental para tornar a produção animal mais eficiente, competitiva e ambientalmente equilibrada, especialmente diante da pressão crescente por redução de emissões e rastreabilidade.
Entre os temas debatidos estiveram o manejo de pastagens, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), uso de novas forrageiras e desafios relacionados à adoção tecnológica no campo. Para os pesquisadores, a sustentabilidade da pecuária passa diretamente pela intensificação eficiente da produção e pelo melhor aproveitamento dos recursos naturais.
O chefe-geral da Embrapa Pecuária Sudeste, Alexandre Berndt, destacou à Feed&Food que o manejo adequado das pastagens segue como uma das principais ferramentas para reduzir impactos ambientais na produção de carne e leite.
“A gente sempre defende e acredita muito na recuperação de pastagem degradada ou no melhor manejo de pastagem. Ela pode nem estar degradada, mas se você fizer um melhor manejo, conseguir produzir mais pastagem, mais pasto de melhor qualidade, você diminui a emissão de metano pela qualidade ser melhor, você coloca mais animais na mesma área, sobrando área para outras atividades e você também tem a possibilidade do sequestro de carbono nessas pastagens porque o manejo é bem feito”, afirmou.
Segundo ele, o ganho de eficiência nas áreas de pastagem permite ampliar a produtividade sem necessidade de expansão territorial, além de contribuir para redução das emissões associadas à atividade pecuária.
ILPF ganha protagonismo na pecuária de baixo carbono
Outro destaque apresentado durante o debate foi o avanço dos sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta. De acordo com Berndt, o uso combinado de forrageiras melhoradas e do componente florestal tem ampliado o potencial da pecuária de baixo carbono no Brasil.
“Quando a gente incorpora o ILPF, o componente florestal, a gente ganha no bem-estar dos animais, ganha no balanço de carbono mais favorável, porque o sequestro, a remoção de carbono nas árvores é muito significativa e chega até a compensar completamente as emissões dos animais”, explicou.
O pesquisador ressaltou que o melhoramento genético das forrageiras também teve papel importante na adaptação da produção às condições tropicais brasileiras. Segundo ele, as cultivares mais modernas apresentam maior qualidade nutricional e melhor resposta ao manejo.
“Forrageiras melhores, como a gente já tem hoje, resultados dos programas de melhoramento, elas são mais adaptadas ao nosso clima, ao nosso nível de fertilidade. A gente tem mais experiência com o manejo delas, então tem mais conhecimento de como extrair melhor resultado daquela pastagem”, disse.
Berndt acrescentou que a combinação entre manejo eficiente, qualidade das forrageiras e presença de árvores nos sistemas produtivos pode permitir uma neutralização das emissões.
“A combinação do ILPF é a única que permite uma compensação total das emissões chegando no zero a zero. Então numa carne ou leite de baixo ou neutro carbono”, destacou.
Adoção tecnológica ainda é desafio
Apesar dos avanços observados nos últimos anos, os pesquisadores avaliam que a adoção das tecnologias disponíveis ainda acontece em ritmo abaixo do potencial da pecuária brasileira. Segundo Berndt, ampliar o acesso à informação e fortalecer ações de transferência de tecnologia continuam sendo desafios centrais para o setor.
“Quando a gente busca eficiência de produção, a gente está contribuindo muito para a competitividade e produtividade. E a eficiência também é um caminho para melhorar a sustentabilidade, porque você reduz desperdícios ou evita desperdícios, melhora o aproveitamento dos recursos naturais”, afirmou. Ele também destacou que a adoção de tecnologias como a ILPF ainda está aquém do esperado em muitas regiões do país.
“A gente vê um avanço importante de integração lavoura-pecuária, mas lavoura-pecuária-floresta ainda está, de certa forma, aquém do que a gente esperava da adoção dessas tecnologias”, comentou.
Segundo o pesquisador, a Embrapa tem ampliado ações voltadas à capacitação e transferência de conhecimento no campo como forma de acelerar esse processo.
“Temos que continuar insistindo e fazendo essas ações de transferência e capacitação para contribuir com a adoção. Não estamos parados só observando, estamos agindo para reverter esse cenário e ampliarmos a adoção”, concluiu.
Durante o painel, os pesquisadores também reforçaram que a ciência brasileira tem papel estratégico na construção de uma pecuária mais resiliente, eficiente e alinhada às novas exigências de mercado relacionadas à sustentabilidade e rastreabilidade.
Fonte: Feed&Food







