Grandes transformações acontecem quando ideias inovadoras encontram recursos em quantidade adequada, projetos de qualidade e gente capaz de executá-los. Quando falta uma dessas peças, sobra a sensação de poderíamos ir além e de que podemos estar desperdiçando uma oportunidade histórica.
É o que acontece, até esse momento, com o Eco Invest Brasil, programa conduzido pelo Tesouro Nacional e que tem como finalidade a atração de investimentos de longo prazo para operações de impacto socioambiental.
O instrumento é particularmente aderente a outro projeto do governo, o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas, que, como indica o nome, pretende estimular a recuperação de áreas hoje improdutivas em lavouras e/ou espaços aptos à prática de pecuária intensiva.
A premissa é, de fato, transformadora. O Eco Invest Brasil despertou interesse de grandes instituições financeiras nacionais e estrangeiras, tornando-se uma evidência concreta de disponibilidade de capital para a transição sustentável no agro.
A prática tem demonstrado, entretanto, que nem todas as peças necessárias para que essa transformação aconteça estão acessíveis – pelo menos até agora. Não é desta vez, como é comum acontecer, uma questão de funding. A distância entre a expectativa de atrair R$ 30 bilhões para o programa e os apenas R$200 milhões já estruturados reflete um problema de execução.
O principal gargalo está, mais especificamente, na originação qualificada de operações que se enquadrem nas exigências feitas, de forma rigorosa, pelos formuladores do programa – diga-se, tecnicamente muito bem fundamentado.
Na busca por um maior controle do risco e uma melhor mensuração dos impactos na aplicação dos recursos, eles demandaram dos produtores rurais um extenso e complexo rol de dados, que nem sempre estão acessíveis, sobretudo àqueles agricultores e pecuaristas menos estruturados.
A primeira consequência é que o modelo não consegue, assim, atender, com eficiência, aos pequenos e médios produtores, que representam uma parcela relevante do agro brasileiro.
Repete-se, assim, o mesmo périplo enfrentado por eles na busca de outras fontes de créditos mais complexos. Acabam ficando à margem por não terem seus dados organizados ou plano técnico formalizado. Além disso, costumam ter dificuldade no acesso a assessoria técnica de qualidade.
O resultado, quase sempre, é serem classificados com risco mais alto, passíveis de taxas mais caras na obtenção de financiamentos. O problema de inclusão (ou de exclusão, nesse caso) não é individual. Quando o modelo não é adequado para operar com pequenos e médios produtores, ele dificilmente ganha escala. E sem escala, limitamos o impacto.
Para se adequarem a programas como o Eco Invest Brasil, projetos devem responder a perguntas fundamentais:
Quem são os produtores elegíveis e em que estágio estão?
Qual é o plano técnico de transição (só intenção não basta)?
Qual o risco socioambiental associado à operação?
Como esse risco será monitorado ao longo do tempo?
Muitas vezes, o problema não é falta de produtor elegível, mas a dificuldade em se enxergar esse produtor. Isso só é possível a partir de dados confiáveis e estruturados.
É nesse ponto que plataformas de inteligência socioambiental e MRV, como a da Produzindo Certo, ganham relevância. Mais do que ferramentas de compliance, tornam-se infraestrutura operacional para viabilizar operações elegíveis, monitoráveis e financiáveis em escala, capazes de funcionar como base para operações dentro dos parâmetros exigidos.
Isso porque o Eco Invest exige uma inversão na lógica como essas operações são formatadas. Se antes se iniciava pelo funding (recursos disponíveis, custo, condições), tendo o MRV como acessório, agora uma operação estruturada parte da elegibilidade real de produtores, de um projeto técnico concreto, da avaliação de risco socioambiental e de uma lógica de monitoramento contínuo.
Sem dados confiáveis, auditáveis e contínuos, qualquer narrativa de impacto fica vulnerável. Com crescente escrutínio sobre promessas ambientais, isso não é um detalhe, é um risco real.
A própria Comissão de Valores Mobiliários (CVM) adaptou a regulação para viabilizar os Fundos Eco Invest. As mudanças regulatórias não foram marginais. Foram estruturais e mostram que o desafio não era apenas atrair capital, era viabilizar estruturas capazes de absorvê-lo.
Em resumo, o Eco Invest não será definido por volume de capital, mas pela capacidade de estruturar, executar e comprovar impacto. Só se tornará um programa realmente transformador se esse capital for revertido em impacto real, mensurável e confiável.
Fonte: Produzindo Certo







