O Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia marca um novo momento para a produção agropecuária no cone sul da América Latina ao colocá-la no centro de um debate estratégico: como ampliar o acesso a mercados exigentes sem aumentar exclusões e impactos socioambientais, competitividade desleal ou insegurança jurídica. Embora o acordo tenha um escopo amplo, é no eixo ambiental que comércio, clima e governança se conectam de forma mais direta. Portanto, o ponto central passa a ser como – e em que ritmo – os produtores estarão preparados para atender a essas exigências.
Nesse contexto, a rastreabilidade deixa de ser um diferencial e se consolida como uma infraestrutura essencial que conecta ambiente, produção e sustentabilidade. Ao articular compromissos climáticos, combate ao desmatamento ilegal, respeito às legislações nacionais e previsibilidade comercial, ela materializa pilares presentes no próprio acordo, que reafirma a permanência no Acordo de Paris, a não flexibilização das leis ambientais e o uso de dados oficiais para monitoramento e conformidade.
Mais do que atender a exigências externas, a rastreabilidade bem estruturada funciona como uma infraestrutura de confiança, oferecendo segurança ao Brasil ao fortalecer a soberania regulatória e a autodeterminação, valorizar dados públicos, sistemas nacionais e políticas próprias, além de contribuir para a gestão de riscos ambientais e sanitários, evitando a proliferação de mecanismos não coordenados e potencialmente excludentes, que pouco dialogam com a realidade produtiva.
No entanto, há um aspecto central que precisa orientar esse debate: integridade não se constrói com exclusão. Uma agenda ambiental que tira produtores da cadeia formal pode parecer uma solução rápida, mas não resolve o problema, ao contrário, reduz transparência e dificulta qualquer monitoramento efetivo. O acordo Mercosul-UE reconhece esse risco ao incorporar princípios de justiça, cooperação e apoio a países em desenvolvimento, incluindo pequenos produtores e contextos produtivos diversos.
É aqui também que a rastreabilidade assume um papel estratégico como ferramenta de requalificação produtiva. Quando associada a assistência técnica contínua, capacitação, critérios claros e graduais, monitoramento baseado em dados oficiais e incentivos adequados, ela cria caminhos reais para a formalização e permanência dos produtores na cadeia. Trata-se de rastrear para melhorar: identificar riscos, corrigir desvios, comprovar conformidade, recuperar áreas, ajustar manejos e reconectar o produtor ao mercado formal.
Essa lógica é especialmente relevante para a pecuária brasileira, desenvolvida em contexto tropical, distribuída por diferentes biomas e marcada por grande diversidade produtiva e tecnológica, além de avanços recentes importantes em governança ambiental. A rastreabilidade individual dos animais, quando pensada como infraestrutura coletiva, cria bases para uma transição pecuária resiliente, escalável e inclusiva, compatível com a realidade do país.
O acordo também sinaliza oportunidades concretas para a pecuária brasileira. Ao ampliar o acesso a mercados e reforçar a integração entre comércio e sustentabilidade, cria condições para valorizar sistemas pecuários alinhados à integridade ambiental, ao uso eficiente da terra e à redução de riscos ambientais e sanitários.
Para isso, é fundamental que rastreabilidade e integridade caminhem juntas com inclusão produtiva. Sistemas robustos, dados confiáveis e critérios transparentes são condições necessárias, mas também é preciso garantir que produtores tenham caminhos reais de adequação, apoio técnico e previsibilidade regulatória. Só assim o comércio internacional deixará de ser um fator de exclusão para se tornar um vetor de transformação positiva.
A resposta mais eficaz ao acordo Mercosul-União Europeia passa por investir em rastreabilidade como infraestrutura de confiança, fortalecer políticas públicas, valorizar dados oficiais e apostar na requalificação dos produtores. No novo cenário do comércio internacional, rastrear é garantir, incluir e permanecer, desde que isso faça sentido para quem está no campo.
*Lisandro Inakake de Souza, vice-presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável.






