Há anos discutimos sustentabilidade na pecuária. Falamos sobre exigências internacionais, pressão de mercado, clima, transparência, rastreabilidade, meio ambiente. Mas, ao entrar em 2026, a sensação é de amadurecimento do debate e de maior clareza sobre o que realmente está em jogo. Muitas questões que antes pareciam distantes, complexas ou impostas de fora continuam desafiadoras, mas hoje aparecem de forma mais concreta e inevitável, especialmente para quem quer manter competitividade num cenário mais exigente.
O que muda, afinal?
Muda mais a perspectiva e menos o entusiasmo. A sustentabilidade deixa de ser vista como um complemento do sistema produtivo e passa a ocupar o centro das conversas justamente porque toca em temas fundamentais e sensíveis: eficiência, reputação, risco, acesso a mercados e longevidade do negócio. Em 2026, a pecuária brasileira não está necessariamente em um “ponto de virada”, mas em um ponto de decisão, aquele em que cada passo tem consequências mais claras sobre o futuro do setor.
A transparência segue como a tendência mais determinante. O mercado global se organiza em torno de dados: de onde vem, como foi produzido… A rastreabilidade assume papel ainda mais central – como estrutura que conecta informações sanitárias, de produção e ambientais. O recém-lançado estudo sobre rastreabilidade reforça esse movimento ao mostrar que sistemas robustos e coordenados reduzem incertezas, protegem o produtor em momentos de crise, aumentam previsibilidade e oferecem base concreta para políticas públicas, crédito e decisões de compra mais inteligentes. Em 2026, a rastreabilidade não é promessa; é expectativa. Mas sua adoção exige tempo, coordenação e, sobretudo, atenção às limitações de boa parte das pequenas e médias propriedades, que ainda enfrentam barreiras históricas para incorporar tecnologias no ritmo esperado pelo mercado.
Nesse mesmo sentido, cresce a percepção de que sustentabilidade é, essencialmente, eficiência. Recuperar pastagens, manejar bem o rebanho, reduzir perdas, aprimorar nutrição, genética, adotar práticas de bem-estar animal e cuidar também do bem-estar humano no ambiente de trabalho – nada disso é novo, mas a relevância econômica dessas práticas se torna mais evidente. A ciência confirma, mas o dia a dia no campo é ainda mais didático: áreas bem cuidadas produzem mais, animais selecionados e bem manejados respondem melhor, sistemas integrados reduzem vulnerabilidades climáticas. Em 2026, essa lógica tende a se consolidar por necessidade e não apenas por discurso.
A agenda climática também assume outro caráter. A discussão sai do campo da polarização e entra, aos poucos, no campo da racionalidade econômica. Métricas mais claras, aproximação com inventários oficiais e maior participação de instituições técnicas ajudam a reduzir incertezas e transformar o tema em critério de planejamento, investimento e crédito. O setor ainda enfrenta desafios – medir emissões não é trivial, comparar métodos é difícil, e comunicar avanços exige cuidado –, mas começa a tratar o clima com mais naturalidade e menos defensividade.
E, no meio de tudo isso, um ponto se torna incontornável: a sustentabilidade só avança se fizer sentido para quem está no campo. Em 2026, cresce a noção de que eficiência, previsibilidade e acesso a mercados podem ser ganhos reais, mas apenas se essas vantagens chegarem também aos produtores que enfrentam maiores barreiras de entrada. É nesse ponto que inclusão e reinserção produtiva se tornam agendas estratégicas. Não basta reconhecer quem já está posicionado; é necessário abrir caminhos para quem ainda está à margem, sob risco de ver a cadeia caminhar de forma desigual e, por consequência, menos resiliente.
E é nesse contexto complexo, gradual e cheio de nuances que o papel da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável ganha relevância. A Mesa atua como ponte: entre elos da cadeia, entre expectativas de mercado e realidades produtivas, entre exigências externas e caminhos possíveis internamente. Em 2026, essa função de convergência se torna ainda mais necessária.
Ao produzir conhecimento aplicável, estimular boas práticas, organizar diálogos, antecipar tendências, apoiar reinserção produtiva e fortalecer narrativas coerentes, a Mesa contribui para reduzir ruídos e ampliar entendimento. A entidade não resolve todos os desafios, mas ajuda a organizar as conversas, a reforçar prioridades e a mostrar onde estão as oportunidades reais. Em um setor tão diverso, esse papel de articulação e clareza é fundamental.
Talvez seja isso que melhor define o momento atual: não um setor unanimemente alinhado, mas um setor mais consciente do que precisa ser feito, mais disposto a enfrentar temas espinhosos e mais atento às consequências de ignorar movimentos que já são estruturantes.
Por isso, 2026 será o ano em que a pecuária brasileira tem tudo para ajustar o passo e reconhecer suas limitações, identificando e criando os melhores caminhos e começando a moldar, com mais realismo, o futuro que deseja construir. Um ano em que eficiência, clima, transparência, bem-estar animal e humano, produtividade e inclusão passarão a dividir a mesma mesa, como temas concretos de trabalho.
No fim das contas, a sustentabilidade nunca foi um destino. Ela é uma trilha, e trilhas raramente são retas. Em 2026, ela ficará mais nítida, mais exigente e, ainda assim, possível para quem decidir segui-la com resiliência, lucidez e consistência.
*Ana Doralina Menezes, presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável






